Monday, September 18, 2017

Setembro amarelo

Todo ano, em setembro, mês em que a prevenção ao suicídio é debatida e incentivada no mundo inteiro, muitos estão postando que estão disponíveis para receber um amigo, para ouvir as pessoas, muitos inclusive estão até dando​ a entender que estão disponíveis para ouvir qualquer pessoa, qualquer desconhecido que faça parte de seus contatos aqui no Facebook, por exemplo. 

Há quem diga que sua casa está aberta para receber qualquer um que estiver se sentindo deprimido, triste e com pensamentos suicidas.

Lendo assim, superficialmente, sem pensar muito, esse tipo de postagem soa pra mim como algo muito interessante, agradável, o qual até me faz lembrar de algumas interações sociais que são muito comuns no interior do Brasil, em cidades pequenas. 

Acho bonito, e não vejo muitos problemas no fato das pessoas estarem mostrando que querem estar presentes, ouvindo umas às outras, que querem tentar ajudar, na medida do possível. Acho bonita essa tentativa de retomar algumas práticas que talvez tenham ficado um pouco perdidas no tempo: as pessoas sentadas em frente às suas casas, as casas mais de portas abertas, vizinhos mais perto uns dos outros, mais eventos populares, feiras livres, mais práticas que facilitam o encontro das pessoas.

Existem diversas e fortes evidências, inclusive advindas de pesquisas científicas consistentes, as quais demonstram que a maior parte de nosso bem-estar psicológico, inclusive nosso bem-estar geral, se devem às nossas interações com outras pessoas. Quanto mais essas interações forem presentes, frequentes e saudáveis, mais saúde e longevidade as pessoas tendem a ter. (1,2,3,4)

Então o isolamento social é realmente um fator importante no desencadeamento de uma série de malefícios para a saúde. Cidades com mais densidade demográfica, mais proximidade física entre as pessoas, tendem a apresentar melhores indicadores de saúde. (2)

O suicídio é caracterizado por um contexto de isolamento. O suicida é alguém que se sente muitíssimo sozinho, entregue a si mesmo, isolado, apartado do restante das pessoas com as quais não consegue se comunicar, das quais não consegue obter ajuda. O desamparo, em uma de suas formas mais intensas e dolorosas, é uma marca característica do contexto de alguém que está pensando em dar cabo de sua própria vida. Essa é possivelmente a maior decisão que alguém pode tomar em relação a si mesmo, e o suicida está lidando com tudo isso absolutamente sozinho. 

Poder falar livremente sobre seus sentimentos e seu desejo de morrer é certamente uma das formas para se encontrar alívio ou alternativas para seu dilema fundamental: diminui a sensação de isolamento e costuma fortalecer laços com outras pessoas, o que pode fazer com que o peso da vida e o sofrimento sejam amenizados.

Portanto não vejo muitos problemas nas pessoas demonstrarem que estão abertas umas para as outras, que querem mais interação. 

Se esse desejo for genuíno penso que bons frutos podem ser colhidos. Contudo muitas pessoas somente perceberão se esse desejo é genuíno, ou quais são seus limites, quando se depararem com a realidade de pessoas deprimidas, suicidas ou desconhecidas, sistematicamente procurando-as para conversarem.

Eu, como psicólogo, feliz ou infelizmente, não me sinto em condições de fazer uma postagem como essa, a qual faz convites indiscriminados para que qualquer pessoa me procure no caso de estar se sentindo isolada, deprimida ou com pensamentos suicidas. As pessoas que me são próximas sabem que podem contar comigo. Podem contar comigo não como um psicoterapeuta, mas como um amigo, como aquele que pode oferecer uma ajuda genérica, informal, que não é profissional​ nem sistemática. 

Um amigo portanto está muito mais sujeito a errar do que um profissional, porque o espaço em que os dois atuam é completamente diferente. Um amigo ouve muitas vezes meio que de qualquer jeito, na rua, em casa, correndo, brincando, fazendo outras coisas. A amizade é essencialmente um espaço livre para a ocorrência de erros, e isso obviamente não pode constituir o contexto de uma relação psicoterapêutica. 

Um psicoterapeuta irá se concentrar mais profundamente no que o outro está dizendo. Haverá espaços específicos para isso, com uma delimitação marcante, clara e contratual do tempo que estarão juntos, e de como deve ser essa interação. É um contexto repleto de regras e controles, os quais não estão presentes em uma relação entre amigos. 

Finalizando, se eu pudesse dizer alguma coisa a quem está fazendo convites indiscriminados às pessoas, nas redes sociais (para irem até sua casa, para serem ouvidas ou para oferecer uma companhia), eu somente pediria para que fiquem atentas aos seus próprios limites. Vocês de fato terão condições de receber e ouvir qualquer pessoa, qualquer desconhecido que leu seu convite, sua postagem?

Talvez muitas dessas pessoas somente venham a perceber seus próprios limites quando começarem a "se deparar com desconhecidos, a qualquer hora do dia ou da noite, batendo à sua porta". 

Postagens como essa me fazem lembrar de uma coisa que julgo como relevante para esse debate: precisamos também repensar as as formas de organização do espaço urbano, na forma como as pessoas estão se encontrando, se existem espaços e contextos que facilitam o encontro, porque a prevenção do suicídio tem uma relação muito grande com a prevenção do isolamento social, o qual certamente tem um papel importante em fazer com que a vida se torna mais frágil e carente de sentido.

Referências:

1. O que faz uma boa vida? Lições do estudo mais longo sobre a felicidade, Robert Waldinger (https://goo.gl/En5ZJc)

2. O maior determinante da felicidade (https://goo.gl/nN4nZN)

3. O segredo para viver mais tempo pode ser sua vida social - Susan Pinker (https://goo.gl/UkhdJ6)

4. Grant Study (https://goo.gl/Rro9bM)

O suicídio está se tornando uma epidemia?

A taxa de suicídios vem aumentando drasticamente? O suicídio está se tornando uma epidemia? 

1. Segundo dados do Banco Mundial, de 2000 a 2015 a taxa mundial de suicídios vem diminuindo gradativamente. 12,2/100 mil em 2000, 11,6/100 mil em 2005, 11,2/100 mil em 2010 e 10,7/100 mil em 2015 (https://goo.gl/LKaQMQ)

2. As taxas de suicídio no Brasil, apesar de terem aumentado nos últimos 17 anos, ainda são baixas: 6,3/100mil (2015). Estão abaixo da média mundial, que é de 10,7/100 mil.

3. Sim, há um aumento significativo da taxa de suicídios no Brasil de 2000 a 2015. 5,2/100 mil em 2000, 5,9/100 mil em 2005, 5,9/100 mil em 2010 e 6,3/100 mil em 2015 (https://goo.gl/2xGkYK). Porém, reparem que o aumento mais intenso ocorreu entre 2000 e 2005 (0,7). Permaneceu inalterada de 2005 a 2010, e teve novo aumento de 2010 a 2015 (0,4).

Quer ajudar um pouco as pessoas, com seus problemas e dilemas na vida?

A primeira coisa é começar a tentar mudar um pouco a postura quando estiver ouvindo as pessoas relatando seus problemas. Culpá-las pelo que elas estão passando é geralmente muito ineficaz. Evite duas frases prontas que comumente saem da boca dos ouvintes nessas horas: "Você não se ajuda" e "Você precisa ser forte" ("Seja forte!").

Essas duas frases, ou qualquer coisa parecida, fazem com que você fique mais distante dessa pessoa. Vai fazer com que ela até comece talvez a evitar você. Porque essas duas frases são aversivas. Estão colocando todo o problema nas costas delas mesmas, e não estão oferecendo praticamente solução alguma. Acrescentam problemas. Fazem com que elas se sintam culpadas e desamparadas. Procuraram ajuda e encontram alguém que lhes aponta o dedo na cara, dizendo que a culpa é delas. Isso não é ajuda, não é solução pra nada.

Tente ouvir a pessoa tentando descobrir mais profundamente o que está acontecendo. Tente buscar por determinantes do que está ocorrendo. Quanto mais você perguntar e tentar entender os detalhes, mais facilmente vocês dois encontrarão, talvez, algumas alternativas.

Quem está com dificuldades precisa se sentir à vontade para relatar o que está acontecendo, e essa pessoa somente irá se sentir à vontade se você demonstrar que aceita o que está acontecendo e o que ela sente. Se você for capaz de demonstrar que compreende por que essa pessoa está se sentindo assim (porque ela de fato tem os motivos dela para estar se sentindo assim) já é alguma coisa.

Então boa parte dos procedimentos relacionados a ajudar efetivamente alguém tem relação com a postura que você terá nessa interação com essa pessoa que está precisando de ajuda. É importante ter uma postura receptiva e não-punitiva. Quanto mais a pessoa se sentir à vontade mais profunda e verdadeiramente vocês dois (duas) mergulharão nas questões e nos problemas que ela está relatando.

Então não tem jeito: tem que escutar com amor, com aceitação, com paciência, com o espírito aberto para o que está vindo de quem fala de suas dificuldades e sofrimentos. No final das contas quem governa uma boa relação de ajuda é o amor, o amor bem feito, o amor no lugar certo, o amor com técnica, ou então é um conjunto de técnicas que no final das contas a gente até pode chamar isso de amor.

Textos com metáforas gordas

Geralmente gosto de poesias, ou textos, com metáforas gordas. Gosto quando juntam alhos com bugalhos, em combinações dentro de combinações, pra roçar o absurdo que brota da boca imunda da audácia em navegar pelo corpo insano de imagens ou ideias emaranhadas em uma rede insólita e inusitada de sentidos.

Uma história de amor, no CAPS

Em 2012 e 2013 acompanhei o caso de um paciente, no CAPS, o qual muitas vezes me impressionava. Tratava-se de um homem, com 38 anos, de aparência forte, que talvez pudesse despertar em algumas pessoas até um pouco de temor.

Tinha umas marcas na testa, de quem forçou muito a expressão com preocupação ou com raiva. Essas marcas já estavam congeladas na fronte, de uma forma profunda. Tinha uma aparência forte e rude, e essas marcas de expressão já permanentes e aprofundadas em seu rosto.

Quando o vi pela primeira vez imaginei que fosse alguém que já tivesse algumas passagens pela polícia, com um histórico de violência. Contudo, quando lhe dirigi algumas perguntas, no grupo, seu tom de voz e sua postura entraram em completa contradição com aquela aparência física forte e rude.

Muitas vezes trazia no pescoço um cordão, com uma cruz de madeira de uns 10 centímetros, e uma camiseta representando algum santo católico. Falava bem pausadamente e em um volume muito baixo. Falava para dentro, de modo muito tímido e discreto. É ainda, até hoje, alguém que não se faz ouvir. Aparência de predador e comportamento recolhido, inibido, de presa, de quem sempre foi oprimido, marginalizado, esquecido, negligenciado.

Portador de epilepsia, desde criança, mesmo com estrutura física potencialmente muito forte, é alguém que foi esmagado pelas condições adversas a que foi submetido durante seu percurso pela vida, tanto em nível fisiológico quanto social.

É uma pessoa muito diferente, assim como muitas pessoas que aparecem para serem atendidas, acolhidas ou acompanhadas pelo CAPS.

É alguém que não reage, não agride, não revida. Viu e está vendo a vida passar, e nunca se sentiu forte o suficiente para fazer alguma coisa que pudesse alterar sua condição constantemente precária no contato com as pessoas e com a realidade.

Uma epilepsia, mal cuidada, negligenciada, parece ter destruído ou arruinado com boa parte de seus desejos, projetos, sonhos ou a participação mais ativa que ele pudesse ter tido no mundo e na vida das pessoas com quem convivia.

Veio para Brasília aos 16 anos, do interior da Bahia. Até então morava na roça, na qual começou a trabalhar com menos de 10 anos de idade, ajudando seu pai. Foi uma criança que teve boa parte de seu desenvolvimento psicomotor comprometido tanto pela epilepsia quanto pela pobreza.

Em Brasília enfrentou, durante anos, o subemprego em serviços braçais. Uma vida permeada por crises convulsivas frequentes, privação de sono (insônia) e sua relação com o mundo comprometida nos mais diversos níveis. Uma vida precária e sofrida. Um sofrimento que sempre se expressou pelos cantos invisíveis aos quais foi relegado. Uma vida massacrada pelo peso do mundo e que estava ali agora diante de mim, em um grupo de fala, com sua voz quase inaudível e seu olhar tímido e terno.

Após sua chegada à Brasília permaneceu alguns anos na casa de um de seus irmãos. Contudo chegou um momento em que seu irmão e sua esposa fizeram com que ele saísse dali para morar em outro lugar. Começou a trabalhar (em serviços gerais) e a residir nas dependências de uma igreja católica. E assim permaneceu durante nove anos.

Teve, durante nove anos, uma vida medieval, a vida que muitos monges têm, contudo sem qualquer tipo de título. Uma vida monástica para alguém ao qual nunca foi atribuído o título de monge ou sacerdote. Acordava todos os dias bem cedo e começava seu trabalho de limpeza e arrumação em um templo. E tudo aparentemente de modo solitário. Limpar, arrumar, colocar em ordem, cortar a grama, podar plantas, pintar o que tivesse de ser pintado, ter uma pausa para uma refeição e oração, voltar ao trabalho para mais uma rotina de atividades, mais uma pausa para o jantar e oração, recolhimento, mais uma oração e dormir, ou ter uma noite atormentada, assombrada por convulsões e insônias e os mais diversos fantasmas que podem acometer alguém que tem uma disfunção cerebral profunda.

Uma vida bovina, obediente, recolhida, quieta e invisível. Uma vida que muitos diriam que está sendo profundamente devotada a Deus.

Após nove anos nessa rotina de trabalhar e morar dentro de uma igreja chegou o momento em que isso também se esgotou, e o padre passou a procurar um outro lugar para que ele pudesse morar.

Nove anos antes disso tudo, um menino, de 9 anos de idade, cuja mãe frequentava a igreja, fez amizade com ele. O pai dessa criança havia tido uma queda há pouco mais de um ano (em 1998) e estava em estado vegetativo (ou algo similar isso) no qual permanece até hoje.

Seus pais já estavam separados há algum tempo, antes mesmo dessa queda, porém essa criança sentia muita falta do pai. Esse menino sentia profundamente a falta de um pai. Frequentemente brincava nas proximidades da igreja. Assim acabou conhecendo e fazendo amizade com José (vou chamar meu personagem principal pelo nome fictício de José), e um dia o convidou para irem juntos até sua casa, para que ele apresentasse José à sua mãe.

Chegando em casa abriu a porta e comunicou à mãe que havia trazido um amiguinho para almoçar com eles. Iara saiu da cozinha e foi até a sala para ver quem era a outra criança, o amiguinho de seu filho com qual iriam almoçar, e se deparou com um homem de estrutura forte e aparência rude.

Estranhou um pouco a amizade de seu filho, uma criança de 9 anos, com um homem de aparência rude e forte, o qual ela já havia visto por várias vezes nas dependências da igreja, trabalhando.

Era José. Ela sabia que José era funcionário da igreja, sabia que ele morava dentro da igreja, mas não tinha mais nenhuma informação sobre quem era José.

Iara era uma maranhense, cujo olhar e voz serena despertavam ternura e um sentimento de tranquilidade em quem quer que tivesse contato com ela. Possuía traços indígenas. Era uma pessoa muito amorosa, muito dedicada a crianças e aos seus dois filhos. Gostava de cuidar de crianças, gostava de cuidar de pessoas.

José se transformou em um amigo da família, o qual algumas vezes ia lá com Tiago, filho de Iara, passar algumas horas dividindo uma refeição ou então assistindo a algum programa de televisão.

José sempre foi aquela pessoa muito quieta e passiva, a qual era completamente invisível para a maioria das pessoas desse mundo, porém despertava profundo carinho em algumas outras, tais como Tiago e Iara.

A amizade entre Tiago e José se aprofundou ao ponto de Tiago pedir a José para ser seu pai. José aceitou. Não tinha a mais ninguém nessa vida. Não recebia amor. Não sabia direito o que era isso, e esse sentimento, vindo de uma criança, foi para ele um presente de Deus.

Além de Tiago, Iara também era mãe de Rodrigo, com 7 anos de idade. Agora a família tinha um amigo. Um amigo diferente, que sempre estava presente, com sua existência discreta, com sua presença sutil e constante. José lhes fazia companhia como um bichinho: pouco falava mas estava ali, sempre por perto, em sua fidelidade às pessoas que lhe estenderam a mão no deserto afetivo que vinha sendo sua vida até então.

E assim mais 9 anos se passaram, até que chegou o dia em que o padre também começou a pressionar e a tentar fazer com que José deixasse de morar nas dependências da igreja. José contou para seus amigos o que estava acontecendo, e eles não hesitaram em convidá-lo para ir morar em sua casa.

Agora havia então um novo membro na família. José ainda tinha muitas dificuldades, para dormir ou mesmo a série de dificuldades que costumam acometer as pessoas que têm convulsões frequentes.
José é uma pessoa que não consegue comunicar com facilidade o que está sentindo, principalmente se esse sentimento for raiva. Isola-se em algum canto e começa a chorar compulsivamente e a rasgar as próprias roupas. Adentra um estado que parece ser uma mistura de seus ataques convulsivos com uma crise de angústia com aspectos autísticos.

Contudo, em sua nova família, encontrou quem acolhesse seu sofrimento, quem compreendesse sua dor. Encontrou amor.

José sempre demandou cuidados, mas era um membro amado dessa família, e eles sempre o acompanharam em suas consultas médicas ou no CAPS. 

Iara era quem mais o acompanhava nas consultas, e para tudo o que ele precisasse, em função de suas necessidades, de certo modo, especiais. Sempre se comportou como se fosse sua irmã mais velha. Iara, com seu olhar sereno, e sua fala mansa e pausada, sempre foi uma pessoa naturalmente simpática. É uma mulher que também carrega o peso e a consistência de uma história peculiar e repleta de fatos inusitados. É alguém que aprendeu a esperar, que sabe muito bem o papel do tempo como um obreiro primordial. Iara sabe deixar o tempo passar, fazendo-o contar e ventar a seu favor. Sua vida nunca andou de vento em popa. E muitas vezes andou até para trás. Mas ela aprendeu e recebeu muito mais da vida esperando do que agindo de modo precipitado.

Já se foram 9 anos de convívio, e nesse período José tem dependido bastante de Iara. É praticamente como se fosse seu terceiro filho. José foi adotado por Iara. Essa é a verdade.

Fiquei, contudo, mais de um ano sem vê-los. Há poucos dias, em um plantão noturno, cheguei, peguei minha agenda, e fui observando os nomes e as datas de nascimento para poder pegar os prontuários e iniciar o que estava marcado. Para minha surpresa estava lá o nome de José, o qual identifiquei prontamente. Meu vínculo com ele sempre foi marcado por apreço e simpatia mútuas.

Cheguei à sala de espera e percebi que ele estava com Iara:

- Quanto tempo que não vejo vocês! Como é que estão as coisas?

- Adriano, que bom que marcaram essa consulta com você! Eu sentia falta de nossas conversas. Tanta coisa aconteceu... Eu tive cegueira, devido a diabetes, e perdi completamente a minha visão.

Adentramos o consultório do CAPS, e passei a ouvir o que pude de todos os acontecimentos que se deram desde a última vez em que os vi, assim como também comecei a coletar um pouco mais de seu histórico.

Fiquei surpreso, e achei muito comovente esse novo fato, o fato dela agora estar completamente cega. Fiquei apreensivo, imaginando que a qualidade de vida deles agora estaria em um nível bem mais baixo do que da última vez em que nos vimos.

Sim, em muitos aspectos a vida da família ficou muito mais difícil. Porém, apesar de todas as dificuldades, José agora se encontrava mais estável. Vem, há cerca de dois anos, comparecendo com regularidade às aulas de yoga, as quais são ministradas voluntariamente por um senhor que emigrou da Estônia para o Brasil há cerca de 20 anos: um idealista que investe boa parte de seu tempo na tentativa de difundir a prática de yoga no Distrito Federal.

- Pois é, Adriano, apesar de todas as dificuldades, José vem caminhando com mais estabilidade. Ele tá fazendo yoga. Ele gosta, e faz muito bem pra ele. Mas o problema agora é esse, agora quem precisa de ajuda sou eu. Agora é ele quem tá também cuidando de mim. Agora um cuida do outro...

PS: Os nomes usados nessa narrativa são fictícios, e todos os detalhes que pudessem identificar as pessoas mencionadas foram ocultados. Esse texto tem a autorização e a aprovação das duas pessoas mencionadas para ter sido publicado aqui nesse espaço.

A "cura gay" está de volta...

Já mudaram o discurso, há muito tempo. Agora muitos defendem que é direito dos gays, que não se aceitam assim, tentarem mudar de orientação, e que os psicólogos que quiserem ajudá-los nessa empreitada (furada) também devem ter esse direito. 

Porém os defensores da "cura gay" não sabem (ou não querem saber) que está comprovado que isso é furada, pois ainda não existe esse tipo de tecnologia. As “curas gays” (tratamentos de reorientação sexual) além de serem comprovadamente ineficazes, tendem a causar mais malefícios do que benefícios. É o que demonstram os resultados de uma força-tarefa realizada pela Associação Americana de Psicologia (APA), a qual fez uma revisão de todas as pesquisas já realizadas sobre o tema.

Resolução da APA sobre o tema: https://goo.gl/jBXo2g

Tuesday, September 05, 2017

Sabedoria

 Vou tentar falar sobre sabedoria sem parecer brega. Não sei se conseguirei. Mas talvez valha o intento...

Sim, sabedoria é diferente de conhecimento. Sabedoria é o conhecimento no lugar certo ou conhecimento sendo aplicado da forma mais eficaz possível, por alguém que parece que descobriu isso sozinho. Seria a melhor relação custo-benefício quando o assunto é o conhecimento e suas possíveis aplicações.

Tem também um pouco a ver com criatividade. As pessoas costumam olhar para quem elas julgam que é uma pessoa sábia como alguém que tirou aquele conhecimento da cartola, ou então construiu seu percurso em muitos anos de experiência. Se for idoso e falar devagar, de forma serena e sensata, logo algumas pessoas já irão lhe atribuir alguma​ sapiência.

Porém, no caso dos idosos, é patente muitas vezes o fato de que muitas pessoas mais maduras, por experiência, costumam dispender menos energia para as mesmas tarefas também realizadas por pessoas mais jovens. É aquela velha história das milhares de horas que são necessárias para se ter maestria em relação a um determinado campo de atuação.
Mas também as surras e os fracassos que a vida nos apresenta funcionam muitas vezes como elementos constitutivos de uma atuação mais sábia. Nossos erros e fracassos podem ser muito pedagógicos.

Sabedoria não combina muito com onipotência. O sábio faz e deixa fazer, fala e deixa falar, permite que o outro também aja sobre ele. O sábio de alguma forma é aquele que aprendeu a apanhar. Não nega a existência do peso do mundo sobre nós, não nega nossa impotência fundamental. Porque culturalmente concebemos a sabedoria como mais próxima da aceitação do que do repúdio exasperado.

Enquanto muitas pessoas negam o peso do mundo e da realidade, o sábio aceita e a partir disso consegue fugir por alguns flancos, comer por alguns cantos.

Já tive contato com algumas definições de sabedoria:

1. O máximo de felicidade no máximo de lucidez possível.

2. Não lamentar o passado e não esperar nada do futuro: o sábio como aquele que não tem nostalgia nem esperança.

3. O saber com sabor: o sábio como aquele que vive o que sabe, o que conhece, e portanto assim faz uma aplicação muito mais eficaz e saudável de seus próprios conhecimentos.
São possíveis várias associações em relação às três definições acima enumeradas. Fiquem à vontade para fazer as suas associações em relação às duas primeiras definições. Porque eu pretendo me concentrar na terceira, e finalizar esse texto falando um pouco dela.

O sábio não é um caminhão de pólvora. É uma espingarda que atira. De nada adianta ter lido muitas obras clássicas, ou livros que são conceituados como estando no ápice da produção do conhecimento humano, se tudo isso estiver servindo somente como lustre cultural, como algo para somente afirmar seu próprio narcisismo.

Ser um caminhão de "conhecimentos", utilizados de modo exibicionista, para tentar seduzir o planeta inteiro, somente atesta um certo desespero em ser amado.

Finalizando...

Há uma história (não sei se é real, e isso também pouco importa) que contam, sobre a vinda de Albert Einstein ao Brasil. Em companhia dele estava Austregésilo de Athayde. Este tinha um caderno e anotava sem parar. A conversa teria se desenrolado mais ou menos assim: “O que você tanto escreve nesse caderno?”, indagou Einstein. “São minhas ideias. Você não tem também um caderno ou bloco de notas para registrar as suas?”. “Não. Só tive uma”.

Saturday, September 02, 2017

Acho que conheci uma santa...

Não são poucas as sessões que tenho com pacientes, no CAPS, das quais saio completamente impressionado, inebriado.

Atendi uma senhora de 61 anos de idade, a qual estava morando na rua por meses a fio, talvez anos. Essa senhora, dos 34 aos 47 anos, residiu com uma amiga e seus três filhos. Ela ajudou essa mulher, nesse período, a criar seus filhos.

Elas se conheceram no final da década de 80, na igreja evangélica que frequentavam. Nessa época a senhora da qual estou falando morava na própria igreja ou na casa do pastor e sua família. As duas se tornaram amigas e, não sei exatamente o motivo, passaram a morar juntas.

Ela nunca se casou ou teve filhos. Nunca sequer teve um namorado. Relata que sua vida sempre foi ela e Deus. Apresenta diversos sintomas de demência (não sabe nem mesmo o primeiro nome da própria amiga, sempre esquece), com um histórico característico de esquizofrenia, cujos delírios e comportamentos basicamente estão relacionados a religião e espiritualidade.

Até mais ou menos 2003 morou com essa amiga e depois disso passou a andar pelo mundo. A amiga relata que ela teve carro por um bom tempo, mesmo sem ter carteira, e que saia com esse carro praticamente sem rumo, estrada afora.

Tinha uma caixa de som em cima do carro e, pelo interior do Centro-oeste ou da região Sudeste, anunciava cultos, fazia propagandas e favores os mais diversos. Praticamente qualquer pessoa que pedisse para que ela o anunciasse com essa caixa de som, ela assim o fazia.

Se apresentou para a sessão de atendimento com uma mochila nas costas, da qual ela não se separa nem quando vai dormir. Ela se cobre com a mochila junto de seu corpo. Dorme todos os dias abraçada a essa mochila, e resiste um pouco a mostrar o que carrega dentro.

Quando estava nas ruas carregava várias mochilas, e dentro de uma delas inclusive havia um notebook, no qual carrega suas memórias: fotografias e vídeos com suas pregações e andanças, e uma série de outras lembranças que para ela são um passatempo. Diz que não gosta nem precisa de internet. Basta abrir seu notebook que ali ela passa o tempo que for necessário ouvindo suas músicas, revendo suas memórias.

Mostrou-me algumas coisas dentro dessa mochila: um livro onde estão inseridos os nomes de centenas de pessoas que ali deixaram sua própria caligrafia e seu nome completo, para que ela pudesse orar por elas; e alimento (alguns biscoitos).

Logo que essa amiga a retirou das ruas, fez questão de levá-la a um centro de saúde e ali providenciaram uma bateria de exames, a qual essa amiga me mostrou. Para a minha total surpresa não havia nenhum exame fora da normalidade. Uma mulher de 61 anos, que estava morando nas ruas por meses ou até mesmo anos a fio, não tinha qualquer alteração fisiológica que indicasse alguma patologia ou até mesmo qualquer tendência a alguma patologia.

Somente havia uma pequena variação, para baixo, dos níveis de ácido úrico, o qual suponho que esteja relacionado à sua baixa ingestão de carne. Segundo a amiga, se fosse deixada completamente livre, ela somente ficaria se alimentando de leite puro e biscoito de água e sal, o que também supostamente está relacionado ao longo período em que morou nas ruas: "Tem que ficar em cima e forçar um pouquinho pra ela comer outras coisas, mas já tá começando a comer uma alimentação mais variada. Gosta muito de feijão e come qualquer tipo de verdura ou fruta."

O relato da amiga era o de que, em cerca de 15 anos de convivência, nunca havia testemunhado qualquer tipo de enfermidade nessa senhora: "Nunca vi ela com gripe ou qualquer tipo de doença. Nunca vi ela se queixando de qualquer tipo de desconforto. Não se queixa nem nunca se queixou de nada. Nunca a vi nervosa, discutindo, batendo boca com ninguém. É sempre assim: sorrindo, cantando, falando de Deus e agradecendo..."

Segundo essa mesma amiga ela é muito bem quista por onde quer que passe: "As pessoas gostam demais dela. Todos lá na vizinhança a amam de paixão e na igreja também. Meus filhos tem adoração por ela. O problema é que ela, uma vez ou outra, resolveu fugir, sumir no mundo..."

Seus familiares moram em algumas cidades do interior de Minas Gerais. Relatam que desistiram dela devido a esse comportamento de andarilho, à imprevisibilidade do que ela pode fazer quando resolve sair pregando e andando pelo mundo: "Sinto que os parentes dela dão muitas demonstrações de desamor por ela." E aí não tem como não nos lembrarmos instantaneamente do dito popular de que santo de casa não faz milagre rs...

E, confesso, também senti uma simpatia enorme por essa mulher. Perguntou-me se eu gostaria de deixar meu nome escrito no caderno dela, para que depois ela pudesse orar por mim, e eu fiz questão de, com carinho e apreço, escrever meu nome completo, com uma letra bem bonitinha, em seu caderno. Não consegui esconder dela a simpatia que despertou também em mim. Fiz questão também de comunicar isso a ela, de que senti coisas muito boas estando em interação com sua pessoa, de que conhecê-la me fez muito bem.

Como já mencionei, ela apresenta vários sintomas de demência. Pelos relatos da amiga, e do que pude observar em seus olhos e na forma como se comunicou comigo, percebi que seu cérebro está se encolhendo, mas a sua luz, essa continua do mesmo tamanho que parece sempre ter tido: uma extensão que contagia a todos que interagem com ela.

Segundo a amiga ela chegou inclusive a ter casa própria, mas vendeu essa casa e distribuiu o dinheiro para diversas pessoas para as quais ela achava que poderia assim beneficiar ou ajudar de alguma maneira. Quando tinha casa para morar inclusive um fato característico era essa casa nunca ficar vazia. Sempre residiu com muitas pessoas em sua própria casa, muitas das quais, segundo ela, estavam precisando de um teto, de comida, ou qualquer tipo de ajuda.

A amiga diz que ela sempre foi assim, "muito mão aberta", muito de distribuir o que tem para quem ela acha que está precisando. Sua casa nunca ficava vazia e sempre havia muitas pessoas ali morando com ela, apesar da falta de espaço ou de recursos.

Durante o atendimento, fiquei me perguntando sobre o que é um santo e se de fato existem santos, ou se essa classificação poderia se aplicar a essa mulher. Simplesmente não tenho resposta para nada disso, e nem mesmo sei se essas questões são pertinentes, mas uma coisa é certa: a presença dela, a interação com ela, me fez muito bem.

Saí do CAPS com mais uma abertura de horizontes, com mais uma perspectiva de mundo. Apesar de todas as dificuldades, de todos os dramas, do viés dos relatos e de todas as contradições presentes em histórias como essa, saí dali me sentindo mais feliz, não pelo contraste com qualquer dificuldade que tenha sido relatada pra mim, mas sim por perceber que a vida pode florescer com alegria e paz em meio a tantas adversidades...
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PS: Pra quem ficou com a pulga atrás da orelha, sugiro a leitura do texto no link a seguir, o qual serve como complemento ou contraste: https://goo.gl/Ei3643

Tudo é fisiológico (1)

Tudo é fisiológico. Não existe essa divisão entre o físico e o mental. Somos um organismo em interação com o mundo e com outros organismos.

A tentativa de dividir transtornos mentais em transtornos orgânicos e não-orgânicos não se refere a uma dualidade perfeita. Transtornos mentais não-orgânicos também tem sua base fisiológica, embora ainda não tenhamos sido capazes de delimitá-la. Assim como os transtornos mentais orgânicos também podem, em boa medida, sofrer influências significativas de nossas interações com o mundo.

A discussão mais importante, na verdade, se dá no nível da fronteira entre o que seria saudável ou patológico. Esse é o ponto mais importante, o qual já contemplei em outros textos. Contudo, neste texto aqui pretendo somente tocar na questão das influências e determinações do que costumamos classificar como sendo transtornos mentais.

Certa vez recebi para atendimento um paciente com sintomas psicóticos, nos quais predominava persecutoriedade e comportamento religioso extremado. Ele vinha sofrendo, sentindo que pessoas, ou entidades sobrenaturais, estavam perseguindo-o, de carro, nas ruas, dentro de sua casa, atrás da porta, debaixo da cama, etc. Havia várias formas de perseguição, muitas e as mais variadas pessoas e entidades, segundo ele, queriam o seu mal.

Ele deixara de praticar atividade física, de jogar futebol, de interagir com alguns amigos que estariam pecando ao estarem namorando, passeando, ou as mais variadas manifestações que de alguma forma eram classificadas por ele como sendo pecado.

Nasceu em uma família de pessoas que majoritariamente seguiam uma religião pentecostal. Porém durante sua adolescência se afastou um pouco da igreja. Contudo, com cerca de 22 anos de idade, passou a apresentar uma série de sintomas que aproximavam seu quadro de um quadro psicótico: delírios persecutórios, alucinações auditivas e visuais, relacionadas principalmente a entidades persecutórias sobrenaturais e comportamento religioso excessivo e extremado.

Parou de trabalhar e começou a se isolar dentro de sua casa, passando muitas horas orando e muitos dias, muitas vezes, jejuando e pregando o evangelho, sempre de modo bastante exaltado, para a família ou para as paredes.

Logo que a família me relatou algumas desses comportamentos que ele vinha tendo, pontuei que algumas dessas práticas talvez pudessem ter um papel relevante na intensificação de seus sintomas psicóticos, tais como o jejum ou a referência a entidades sobrenaturais persecutórias.

Mesmo que seu histórico contenha vários elementos ratificados epidemiologicamente como sendo característicos do desenvolvimento de um transtorno psicótico, em tese, orgânico, não faz o menor sentido desistirmos de considerar também alguns possíveis influenciadores ou determinantes no nível das interações sociais ou com o mundo físico, não imediatamente social.

Ficar de jejum prolongadamente ou sem dormir por muitos dias são reconhecidamente práticas que tendem a produzir ou intensificar alterações sensoperceptivas e do juízo de realidade.

Ou seja, para uma pessoa, com os sintomas dos quais ele vinha padecendo, penso que não é recomendável que faça jejuns prolongados ou que fique por dias sem dormir direito. Na minha compreensão também não é recomendável que participe ativamente de cultos muito exaltados, os quais constantemente se referem a entidades sobrenaturais persecutórias.

Muito possivelmente esse paciente não precisava mudar de religião. Ele precisava somente participar de cultos menos exaltados e menos votados à persecutoriedade. Precisava na verdade ter seu ciclos de sono completos, e as horas adequadas de repouso todos os dias, assim como fazer as suas alimentações de forma regular durante o dia, sem a prática de jejuns prolongados.

Muito possivelmente poderia continuar participando das práticas culturais que vinham sendo cultivadas por sua família há muitos anos. Ir aos cultos de sua igreja, e se sentir integrado à sua comunidade de origem, era inclusive algo importante para a sua reabilitação psicossocial. Contudo talvez fosse necessário que participasse mais de cultos que fossem realizados de uma outra forma, de uma forma menos exaltada, de um modo mais sereno, suave.

O presente texto foi numerado. Voltarei a este tema. Esta série continua...

Tuesday, July 11, 2017

As coisas não melhoram porque você ficou mais otimista...

As coisas não melhoram porque você ficou mais otimista. Você ficou mais otimista porque as coisas melhoraram.

Geralmente não basta recomendar que as pessoas sejam mais otimistas. O mundo, as relações com o mundo, precisam se alterar e, se alterando, é assim que as pessoas naturalmente ficam mais otimistas.

Acreditar não é causa de comportamento, acreditar já é o resultado, a consequência de algumas relações com os outros e com o mundo. Dizer que as pessoas precisam acreditar é muito pouco. Precisamos fornecer as condições adequadas para que as pessoas comecem a acreditar. Elas começam a acreditar se essas condições se formam. As condições primeiro se formam, e aí sim elas começam a acreditar.

Recomendação de mais otimismo costuma ser algo muito pouco efetivo e forçado, principalmente se vier alguém com quem não temos vínculo, que não nos conhece ou não conhecemos suficientemente para poder confiar e poder contar com essa pessoa, caso as coisas não dêem certo.

É somente entrando em contato com a realidade, com as contingências que a própria situação vai impondo, que você vai acreditar que uma hora pode conseguir ou não alguma coisa nessa vida.

O sentimento de crença depende de como a pessoa vai se envolvendo com a situação que a desafia. É muito difícil acreditar se não houve preparo para isso. Acreditar não é algo que brota do nada. Brota de ambientação.

Fora o fato de que também haverá crenças completamente deslocadas da realidade, crenças falsas, que somente estão baseadas no incentivo enganador de algumas pessoas que geralmente estão abusando de quem acredita.

Portanto: falsas crenças e otimismo forçado não fazem verão.

Moralismo

Confundir o mal com o malvado, com pessoas malvadas, não é bom.

Pode reparar que um dos elementos principais de discursos moralistas e rasos é a confusão do mal com pessoas malvadas.

O discurso moralista é recheado de condenação. Os moralistas são mestres em condenar e castigar pessoas. Entendem muito pouco sobre o que de fato produz bem ou mal-estar nos outros. Entendem mais de como combater algumas pessoas que são seus alvos para a punição.

São muito mais punidores do que benfeitores.

Sunday, July 02, 2017

A autoestima vem de fora

"Antes de diagnosticar a si mesmo com depressão ou baixa autoestima, primeiro tenha certeza de que você não está, de fato, cercado por idiotas."

Não existe autoestima que resista a linchamento moral, a não ser que você seja psicopata ou psicótico.


E olha que é sacanagem botar tudo o que é psicótico nesse balaio. A maioria deles também costuma ter a autoestima massacrada em situações de linchamento moral.

Como aumentar a autoestima e a autoconfiança:

Tuesday, June 06, 2017

Valentões e terapia

Agressividade, força e coerção são modos de atuação viciantes. Os resultados, as gratificações, costumam aparecer rapidamente. As pessoas ficam com medo, obedecem ou devotam respeito, e até admiração, a quem assim se comporta.

Valentões, em uma terapia, costumam perceber os efeitos colaterais, e geralmente chegam até nós, psicoterapeutas, em virtude de algum sofrimento decorrente do uso constante e excessivo da força, da violência, de sua capacidade de ameaça e de intimidação.

Percebem uma série de danos que causam nas pessoas, e em si mesmos, em virtude de seu "vício". Mas relatam que não conseguem deixar de explodir, de usar da força, de apelar para a violência quando precisam resolver alguma questão ou alcançar algum objetivo. A maioria inclusive nem percebe que assim agindo estão alcançando seus objetivos, e que muito dificilmente mudarão seu comportamento se os resultados continuarem sendo os mesmos, se as pessoas continuarem demonstrando medo, obedecendo, fazendo exatamente o que eles querem.

Certa vez ouvi de um deles, o qual inclusive já se mostrava mais sensibilizado com isso tudo, demonstrando um pouco de culpa:

- Mas você tá querendo dizer o quê, Adriano, que eu escolhi ser assim, que eu, além de todos os prejuízos que tenho tido em minha vida, ainda sou culpado por tudo isso?

Sua culpa já era mais do que suficiente, e não alteraria muito a situação sentir ainda mais culpa do que já estava sentindo. Não basta ficar se sentindo culpado, e simplesmente não ter a menor ideia do que fazer, de como agir para poder começar a resolver seus problemas. Fora o fato de que ninguém tem culpa ou mérito por ser o que é. Culpa ou​ mérito talvez somente se apliquem a ações ou interações específicas, para as quais precisamos definitivamente apontar os responsáveis diretos. Cada um ser o que é, e ter ou não responsabilidade sobre isso, é outra história.

Mas aí, em terapia, não tem outro jeito: é necessário escuta e acompanhamento constantes, para que essa pessoa vá descobrindo quais são especificamente os contextos que despertam seus episódios de agressividade e violência, assim como também saber quais são as consequências desse tipo de comportamento.

E bastará essa pessoa ter conhecimento sobre os determinantes de seus comportamentos indesejáveis? O autoconhecimento será suficiente? Não, porque muitas pessoas também mudam sem simplesmente terem tido conhecimento sobre os determinantes de seus comportamentos. Autoconhecimento porém costuma ser importante porque facilita o autocontrole, se é que isso existe.

Mas o que estou tentando dizer, e que inclusive se relaciona com essa questão das responsabilidades sobre sermos o que somos, é que as consequências, os resultados, precisam ser alterados, e essas consequências somente serão alteradas por outras pessoas, e não pela própria.

Muitos terapeutas esperam que a própria relação com eles (com o terapeuta) seja um dos mecanismos dessa mudança. Esperam que o paciente passe a seguir algumas novas regras que são construídas durante a terapia, na relação do paciente com o terapeuta. Juntos elaboram algumas estratégias, para as quais são necessários​ o consentimento e a motivação do paciente para realizá-las. A partir disso espera-se que o paciente comece a cumprir o que foi planejado, e que as gratificações provindas do próprio terapeuta (e de suas novas relações com o mundo) sejam suficientes para que o paciente continue se esforçando.

O paciente sai do consultório e volta para a sua casa, para o seu mundo cotidiano, e começa a tentar se comportar de maneira diferenciada, assim como também procura se observar de modo mais detalhado, atentando-se às consequências desses novos comportamentos.

Feito isso, retorna às sessões posteriores para debater e analisar como essas mudanças estão impactando sua vida. Trata-se de fazer diferente e observar a consequência. E tudo isso será analisado e pensado de modo detalhado nas sessões posteriores. Há muito de tentativa e erro, de testagem, de esforço constante na direção das​ mudanças​, as quais geralmente vão se implementando de modo bastante gradual, não-linear e lento, com períodos inclusive de regressão.

Geralmente se avança alguns passos, e em um próximo momento se retorna alguns outros, ou mesmo esses passos acabam por serem completamente apagados. Ser terapeuta é saber lidar constantemente com a impotência e o fracasso, os quais estão e estarão sempre presentes. Vitórias e progressos sólidos e definitivos existem, mas não me arrisco a dizer que são a regra.

Atuar em um CAPS de grande porte nos proporciona com mais clareza essa dimensão, porque podemos observar o trabalho de nossos colegas e o quanto também ralam com as imensas dificuldades que existem para que as pessoas consigam mudar de vida.

Minha maior gratificação não é a proporção de sucesso nessa empreitada de corpo e alma. Minha maior gratificação é a própria interação com quem está sofrendo, e perceber que essa interação é capaz de diminuir muito de seu sofrimento.

Ser terapeuta é atuar em uma profissão que dedica muito amor na relação com os pacientes. É o prazer de estar junto, de acompanhar, de cuidar, de conhecer histórias fascinantes, de saber que há uma riqueza muito grande na diversidade imensa das possibilidades de relação entre as pessoas, porque geralmente existe um mundo vasto e envolvente na história de cada pessoa para a qual dedicamos nossa escuta e companhia. É participar ativamente da construção, e da reconstrução, da vida e da história dessas pessoas.

Sunday, June 04, 2017

Histeria coletiva

Mesmo no caso da histeria coletiva há uma especificidade do contexto: algumas pessoas, em uma determinada comunidade, de repente apresentam sintomas que comprometem sua funcionalidade. A histeria coletiva diz respeito a um transtorno específico, o transtorno de conversão. É muito diferente, mas muito diferente mesmo, de tentar abusivamente afirmar que governistas ou não-governistas padeceriam de algum tipo de transtorno mental.
Se você quer afirmar de modo vulgar, ou como força de expressão, que um determinado grupo de pessoas, do qual você discorda, é simplesmente louco, fique à vontade. Não vejo muitos problemas nisso.

Somente não queira obter, de profissionais da área de saúde ou pesquisadores, algum diagnóstico de transtorno mental para essas pessoas. Seria antiético, abusivo. Isso é classificado como abuso psiquiátrico e já ocorreu com frequência, em nossa história, sempre que tentaram desqualificar, neutralizar, isolar ou exterminar pessoas que têm um posicionamento ideológico diverso daquele dominante em um determinado contexto.

É querer carimbar e colocar um rótulo (falso) de comprovação científica em adversários e assim exclui-los do debate político. Isso é, no mínimo, autoritário, antidemocrático.

Para quem quiser se aprofundar um pouco no debate, sugiro começar pela leitura do verbete sobre o tema, na Wikipedia:


Fiz também dois vídeos que tangenciam esse tema:

Equivocados ou loucos? Qual é o limite entre o equívoco e o delírio?

Existe loucura coletiva?


Como diminuir a desigualdade social no Brasil?

Sabemos que na Europa Ocidental e, de modo geral, no países ricos, um trabalhador, cuja mão-de-obra não é qualificada, recebe uma remuneração muito mais digna do que no Brasil. Sabemos que lá a distância entre um médico e um pedreiro não é tão grande como no Brasil. Há menos disparidade de salários do que aqui. Há menos desigualdade social.

E como fazer para diminuir as desigualdades sociais?

Há dois caminhos básicos. Um é ditado pelo mercado, pela lei da oferta e da procura. Se há um contingente muito grande de pessoas disputando vagas em postos de trabalho menos qualificados, logo o preço da mão-de-obra cai. No Brasil é isso o que ocorre, devido às nossas conhecidas deficiências no campo educacional. Formamos mão-de-obra qualificada ainda de modo bastante deficiente.

Contudo nos últimos 14 anos houve maior acesso ao ensino superior e técnico, além do fato de que o fortalecimento de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, também ajudaram incrementar o preço da mão-de-obra não qualificada. Programas como o Prouni, Pronatec e Bolsa Família tiveram um papel fundamental nisso. Remodelaram um pouco o mercado, produzindo maior concorrência em pontos mais altos da pirâmide do mercado de trabalho. Quanto maior a concorrência, menor o preço da mão-de-obra. Isso acirrou um pouco a concorrência na base dessa pirâmide. As empregadas domésticas e diaristas puderam, por exemplo, ter uma vida um pouco mais digna.

Um outro caminho para se diminuir as desigualdades sociais é a reforma tributária, a qual ainda não fizemos. O Brasil é um dos países em desenvolvimento onde os mais ricos são menos taxados. Segundo reportagem da BBC: “O que está por trás do tamanho da carga tributária brasileira é o grande volume de impostos indiretos, ou seja, tributos que incidem sobre produção e comercialização – que no fim das contas são repassados ao consumidor final. (...) O grande problema é que esses impostos indiretos são iguais para todos e por isso acabam, proporcionalmente, penalizando mais os mais pobres. Por exemplo, o tributo pago quando uma pessoa compra um saco de arroz ou um bilhete de metrô será o mesmo, independentemente de sua renda. Logo, significa uma proporção maior da remuneração de quem ganha menos.”

Então continuemos lutando por algumas coisas importantes: manutenção de programas como Prouni, Pronatec e Bolsa Família, e que haja reforma agrária e uma reforma tributária, no Brasil, a qual faça com que nossos impostos sejam mais progressivos e menos focados na produção. Porque de pouco adiantará acreditar que essa mudança se dará simplesmente pela via moral ou cultural. É preciso de lei porque somos, de modo geral, pouco capazes para o amor.

Fontes:
Rico é menos taxado no Brasil do que na maioria do G20 (BBC)
Redução da desigualdade requer reforma tributária (IPEA)

Thursday, June 01, 2017

Matar, fazer sofrer e veganismo

Para você que gosta de comer carne e fica incomodado com a superioridade moral dos veganos, a qual é um fato, a qual realmente existe, posso lhe dizer uma coisa que talvez o tranquilize um pouco: sob determinadas condições não é antiético comer alimentos de origem animal. Sim, você tem o direito moral de matar, e pode exercê-lo com gosto, com tranquilidade.
Há seres que sofrem (sencientes) e que não tem o direito à vida: não faz sentido ético que o tenham. Talvez somente alguns primatas e cetáceos devam ter o direito à vida. Isso quer dizer que podemos matar a maioria dos seres sencientes para sobrevivermos ou satisfazermos nossas necessidades e desejos.
Mas não podemos torturá-los, prolongar seu sofrimento. Não podemos, por exemplo, criá-los em espaços minúsculos, insalubres, em ambientes que no final das contas são torturantes. Isso é impor-lhes uma vida miserável, extremamente sofrida.
Que os métodos de criação se tornem menos sofridos e mais próximos do ambiente natural desses animais, e que o abate seja rápido e, na medida do possível, indolor. É isso. Podemos matar dezenas de bilhões de animais, como já o fazemos todos os anos. Só não podemos torturá-los, que é o que infelizmente ainda ocorre, devido principalmente às formas de criação e abate.
Matar não é necessariamente antiético. É muitas vezes um dever, uma necessidade. Antiético é fazer sofrer, ou permitir o sofrimento, sendo que isso poderia ser evitado.

O relativismo moral é irracional e contra os direitos humanos

Os códigos morais variam conforme o contexto sócio-histórico-cultural. Mas defender que não existe a possibilidade de uma ética objetiva (de que é impossível definir objetivamente o que é bom ou mau, após a análise criteriosa e sistemática de alguns contextos específicos das interações entre os seres que sofrem) é definitivamente jogar todo empenho, história e utilidade da Ética e da Bioética no lixo. E mais: se a ética é subjetiva, definir o que é bom ou mau depende somente de uma guerra de umbigos. Isso é irracional: afirma a força como mais importante do que a razão. Afirma que no final das contas o veredito será dado em favor do mais forte. É permitir a ditadura da maioria. É ser contra os direitos humanos.

Friday, May 26, 2017

Festas opulentas de casamento

Na minha concepção festas de casamento caríssimas, para zilhões de convidados, com longos e inúmeros preparativos e detalhes, em sua maioria são mais um fator de estresse e exposição desnecessária das promessas e votos íntimos de um casal do que uma autêntica celebração do amor. Mais expõe e fragiliza do que consolida uma união. É apostar mais no olhar, no julgamento e na cobrança dos outros sobre nossa intimidade do que na proteção da própria vida íntima do casal, a qual obviamente ultrapassa a superfície do que se mostra nesses rituais, porém não consigo deixar de acreditar que abre perigosamente portas para o juízo de quem não tem nada a ver com isso. No final das contas todo esse volume de esforços, para sacralizar algo que já se dessacralizou há muito em nossa sociedade, me soa cafona e fútil.

Wednesday, May 17, 2017

Ser diferente: sozinho, na discrição, todos juntos?

No livro “A conquista da felicidade” Bertrand Russell (1930) afirma que ser diferente não é necessariamente uma sentença de morte. Ser diferente, em uma sociedade mais tradicional, e levantar, sozinho, a bandeira de sua diferença para com o mundo é um ato bastante corajoso ou suicida, como também demonstrou Harvey Milk mais de 30 anos depois: era melhor que todos saíssem do armário, de uma vez, juntos. Sair sozinho é sempre temerário.

Ter uma pequena divergência de opinião para com a maioria das pessoas de um determinado grupo, em um ambiente de trabalho ou em casa por exemplo, a qual diz respeito a um fato acessório de sua vida, e guardá-la somente para si, é algo que protege, e muitas vezes nos livra de desavenças inúteis e danosas.

Mas ser diferente é algo de outra dimensão. Ser não é acessório. Não é parte, é a totalidade do que é uma pessoa. Então, para esse caso, mais vale Milk do que Russell em 1930. Alan Turing e sua prisão em 1952, condenação e castração química que o digam.

 Viver de modo diferente, e na discrição, pode não resultar em danos maiores. Porém não sei o que Russell passou a pensar sobre isso após a prisão porém escreveu isso em 1930. Alan Turing em 1952

Tuesday, May 09, 2017

É inveja?

Algumas pessoas tem o hábito de dizer que são hostilizadas porque são invejadas, mas não percebem que muitas vezes são hostilizadas justamente em função desse hábito, o qual costuma ser julgado como antipático. Isso cria um ciclo vicioso que reforça sua percepção equivocada e seus conflitos interpessoais. Porque no final das contas, também, é muito mais fácil continuar se achando superior do que se perceber como um bosta presunçoso.

Wednesday, May 03, 2017

Basta pensar diferente?

“Basta pensar diferente”. Esse era o título de um livro que uma colega está lendo:

- Está me ajudando muito. É de TCC (terapia cognitivo comportamental).

Aí fiquei pensado: se pensar diferente é um efeito, um resultado de novas interações com o mundo, não faz sentido afirmar que “basta pensar diferente”. Tentei explicar isso para minha colega:

- Não concordo, Adriano. Está me ajudando muito e é isso o que interessa. Cada um com seu cada um.

Bom, pelo menos espero que ela não esteja somente tentando pensar diferente. Espero que não esteja sozinha nessa empreitada, que novas interações estejam ocorrendo em sua vida, e que estas tenham força para sustentar o desejo dela de pensar diferente. Boa sorte, querida!

Saturday, April 29, 2017

Militante, um recado pra você!

Se você é militante de alguma causa, e sempre se dirige a quem pensa diferente de você como sendo um idiota, um imbecil repugnante, você está simplesmente fazendo o contrário do que deveria fazer para produzir alguma mudança na direção que você deseja.

A esquerda hoje, em boa medida, está dividida em função disso. Está se destruindo por dentro, se implodindo, por querelas ideológicas. Moralismo, discursos obscuros (que poucos compreendem) e patrulhamento ideológico: eis o preço de seu preciosismo, de um apego a detalhes que simplesmente se esqueceram do que é fundamental.

Tuesday, April 04, 2017

Amor é perrengue

Se você não é uma pessoa louca de tacar pedra e, no amor, está com medo de ser inconveniente, por estar ligando fora de hora, saiba de uma coisa: amor é isso mesmo. É perrengue, é convívio com tudo o que o outro tem de bom e de ruim. É surpresa, é tolerância e a necessidade de balanço constante. É ter o direito de aporrinhar e o dever de cuidar, e de dizer que está se sentindo aporrinhado(a), se for o caso. Exerça seu direito e não se furte ao seu dever, que já é meio caminho andado para o amor andar bem das pernas.

Wednesday, March 29, 2017

“Basta pensar diferente”?


“Basta pensar diferente”. Esse era o título de um livro que uma colega está lendo:

- Está me ajudando muito. É de TCC [terapia cognitivo comportamental].

Aí fiquei pensado: se pensar diferente é um efeito, um resultado de novas interações com o mundo, não faz sentido afirmar que “basta pensar diferente”. Tentei explicar isso para minha colega:

- Não concordo, Adriano. Está me ajudando muito e é isso o que interessa. Cada um com seu cada um.

Bom, pelo menos espero que ela não esteja somente tentando pensar diferente. Espero que não esteja sozinha nessa empreitada, que novas interações estejam ocorrendo em sua vida, e que estas tenham força para sustentar o desejo dela de pensar diferente. Boa sorte, querida!

Friday, March 17, 2017

O paradoxo de Epicuro

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Um pouco da história de minha mãe

Nasci e vivo em uma sociedade machista, mas a voz mais influente para com os filhos, em minha casa, sempre foi a de minha mãe. Nós, os filhos, escutamos dela, nossa infância e adolescência inteiras, sobre o tanto que homens abusavam de mulheres, e ele fazia questão de nos dar inúmeros exemplos disso, principalmente dentro de casa, na relação de meu pai com ela.
Seu pai morreu em 1955, quando ela tinha 8 anos de idade, a duas quadras de casa, atropelado por um ônibus, que lhe esmagou a cabeça; e ter visto seu corpo, com a cabeça esmagada, no necrotério, não foi a pior coisa que ocorreu na vida dessa mulher, minha mãe.
Tendo seu pai morrido, formou-se uma nova configuração familiar, agora somente composta por mulheres: minha avó, com 30 anos, viúva, e suas 3 filhas. Minha mãe era a mais velha, com 8 anos de idade. Minha outras duas tias tinham 6 e 4 anos. Moravam em Ribeirão Preto, no interior do estado de São Paulo, e seus familiares mais próximos, sua família extensa, residiam na zona rural, em municípios distantes cerca de 200 km de Ribeirão.
Essa mulher e suas três filhas estavam isoladas, vulneráveis. A partir dessa condição ouvi, durante minha vida toda, algumas histórias que minha mãe contava. Ela relata que a partir da morte de seu pai surgiram muitas dificuldades. Resumindo: minha avó teve mais três filhos, com outros dois homens. No final das contas tinha 6 filhos, com 3 pais diferentes, sendo um morto, um que nunca assumiu um dos filhos e outro que veio a se casar com ela, anos depois, após uma história repleta de instabilidade, negligência com os filhos e privações as mais diversas.
Minha mãe sempre nos contava que minha avó tinha sido muito negligente com os filhos, e que ela sempre dizia assim:
“Os filhos não são nossos, e quem cria é o mundo.”
Sempre relata um episódio, quando minha avó simplesmente sumiu, foi embora de casa, sem dar muitas notícias, voltando somente 3 meses depois.
“Eu somente sabia que ela tinha ido para Franca, mas a gente não tinha o endereço. Depois fiquei sabendo que ela tinha ido pra lá a procura de um amante. Mas ela voltou somente 3 meses depois e nós ficamos sem assistência alguma...”
Minha mãe tinha 11 anos, suas irmãs tinham 9 e 7 anos, e meu tio, filho do homem que nunca o assumiu como filho, tinha somente 8 meses de idade. Depois de mais ou menos duas semanas não havia mais comida. Minha mãe me disse que alguns vizinhos perceberam e lhes deram algum alimento tal como fubá ou coisa similar. Sim, começaram a passar fome.
Nesses 3 meses tiveram de tentar refúgio na casa de familiares. Com a ajuda de vizinhos e a boa vontade de desconhecidos, conseguiram pegar um ônibus para a “rocinha”, para a casa de alguns de seus familiares. Chegando lá, contudo, sua avó foi clara:
- Vocês entram, mas esse bastardo [o bebê] não!
Minha mãe teve de voltar para a estrada e, segundo sua avó, o bebê deveria ser abandonado em qualquer canto. Minha mãe não teve coragem de abandoná-lo ou de dá-lo para alguém. Novamente, com a ajuda e boa vontade de desconhecidos, conseguiu pegar um ônibus de volta para Ribeirão Preto.
Lembro sempre que minha mãe contava essa história chorando, algumas vezes inclusive na presença também de meu tio, o qual também chorava ao ouvir o relato. Conta que voltou com ele para a cidade e que esses vários e longos dias em que passaram sozinhos teriam sido os piores da vida dela.
Isso porque, antes disso, minha mãe já trabalhava, desde os 9 anos de idade, em troca de comida. No final dia, depois de muito trabalho de faxina, na casa de algumas mulheres que viviam de prostituição, ganhava um prato com arroz cru.
Passou pela casa de muitas pessoas, como doméstica, até mais ou menos seus 18 anos de idade, quando conseguiu trabalho como balconista, no comércio do centro da cidade. Prestes a completar 22 anos casou-se, e um ano depois teve seu primeiro filho, meu finado irmão, Eduardo.
Segundo ela, meu pai bebia muito e, um pouco antes de meu irmão nascer, estava bastante violento. Disse que foi várias vezes agredida, espancada nessa época, ou quando éramos todos já nascidos e pequenos. Relata inclusive que uma vez ele a espancou com um cabo de vassoura, deixando-a com o olho roxo, que ela justificava, para os vizinhos e conhecidos, como um tombo que havia levado.
Sei que meu pai deixou de beber de 1976 a 1984, e que essa época foi marcada por uma certa calmaria. Portanto, dos meus 3 aos meus 12 anos de idade tudo correu mais ou menos bem. Os episódios piores, de maior violência, se deram, segundo ela, antes de 1976, e eu simplesmente não me lembro de tê-lo visto agredindo-a. Porém, meu pai quebrando a casa toda é lembrança recorrente de minha infância e adolescência.
Segundo minha mãe, seu primeiro ano de casamento, sem filhos, foi muito difícil. Ele se comportava de modo excessivamente agressivo, ciumento, e voltava sempre muito tarde para casa. Ela dizia que nesse primeiro ano ele teve uma vida de solteiro.
Conversando sobre isso tudo com minha avó, sua sogra, essa teve uma ideia que parecia brilhante:
- Dá um filho pra ele, que ele sossega...
E assim veio ao mundo meu irmão mais velho, Edu, o qual cometeu suicídio 28 anos depois. Veio com uma missão impossível e absolutamente injusta para com uma criança: salvar um casamento falido.
O resultado é que meu pai continuou do mesmo jeito e, óbvio: a vida piorou, muito. Minha mãe relata que um dos filhos veio da maternidade, no colo dela, na garupa da Lambreta (uma espécie de motoneta da época), e não duvido que tenha sido o Edu. Relata também que, após o nascimento de um de nós, ela teria chegado em casa e limpado a casa toda, deixando-a um brinco, inclusive indo para o chão, de quatro, para encerá-lo.
Minha mãe relatou-nos, algumas vezes, que fez alguns abortos – não sei se 2 ou 3. Diz que, se não fossem esses abortos, nossa vida teria sido muito pior. E eu simplesmente também não duvido disso. Crescemos ouvindo que a vida é dura, muito dura, que o mais importante é a qualidade de vida, que colocar alguém no mundo é uma responsabilidade enorme, que criar filho é muito difícil, que “homem é tudo igual”, que as tarefas domésticas devem ser igualmente divididas por todos, que “mulher burra arruma logo uma barriga” e também:
“Coloque-se no lugar do outro”; “Deus é uma força maior e bela, mas religião é furada, (...) só querem levar seu dinheiro...”; “vocês estudem porque senão vão puxar carroça”; “não me arranjem filho cedo, porque filho é atraso de vida”; “no dia em que eu ficar velha me levem pra um asilo ou me deixem morrer, porque não quero dar trabalho pra ninguém”; e agora, mais recentemente: “seu irmão é que está bem, porque nem conheceu a velhice” – ao falar de Edu; “a velhice é uma merda”.
Ah, minha mãe também sempre detestou flores com hipocrisia.
- Não venha me dar florzinha não. Ou é compreensivo e companheiro ou nada feito!
No dia de hoje, no dia das mulheres, só quero lhe dizer uma coisa, minha mãe:
Você é a primeira pessoa que tentou me mostrar o que é ser mulher. O aprendizado é constante, e ainda tenho muito o que aprender e ouvir. Quero ainda poder escutar em mais detalhes todas as suas histórias e tudo o que ainda não sei. Se hoje consigo entender um pouco melhor a histórica divisão sexual do trabalho e a subjugação da mulher, algumas peculiaridades do universo feminino e seus dramas, em boa medida é porque você ajudou a produzir uma boa base pra isso...
Obrigado, minha mãe!