Saturday, January 06, 2018

Por que a taxa de suicídios é maior nos países ricos do que nos países pobres?

Quanto maior a desigualdade social, menor o índice de felicidade. Quanto maior o índice de felicidade, maior a taxa de suicídios. E a taxa de suicídios é maior nos países ricos do que nos países pobres.

Eis alguns dados de pesquisa, por enquanto paradoxais, os quais vêm sendo replicados por fontes independentes.

A impressão que tenho é que altas taxas de suicídio tem uma relação muito maior com a disponibilidade para tal, seja ela obtida por meio de alguns incentivos culturais, assim como por meio até mesmo da disponibilidade de conhecimento, de informações acerca de meios que tornem mais possível o ato suicida.

O suicídio não é proporcional à quantidade de sofrimento porque se assim o fosse muitos animais cometeriam suicídio, e a maioria deles não comente suicídio justamente porque não tem capacidade cognitiva ou os meios disponíveis pra isso.

Então a taxa de suicídios é mais elevada nos países ricos e também os índices de bem-estar psicológico, de felicidade, porque eles têm os meios tanto para terem mais bem-estar psicológico como também para poderem dar cabo de sua própria vida.

Isso sem mencionar também os fatores relacionados ao alto nível de individualismo mais presente em estados ricos do que nos pobres, o qual também tem um papel grande, pois o suicídio é eminentemente um ato solitário e de certo modo bastante relacionado a um tipo específico de isolamento social.

"O que você tem é psicológico..."?

"O que você tem é psicológico..."

É comum ouvir isso, até mesmo de médicos. O problema, porém, é que já fizeram esse tipo de hipótese ou alegação psicologizante em relação a várias enfermidades, as quais depois se demonstraram como sendo determinadas por outros fatores. Cito alguns exemplos: tuberculose, úlceras gástricas e uma série de enfermidades relacionadas a inflamações crônicas.

Depois que descobriram o bacilo causador da tuberculose, as alegações de que era uma doença, cuja determinação era psicológica, foram para o ralo, e isso também aconteceu com as úlceras gástricas depois da descoberta do do papel da H. pylori, e isso vem acontecendo com várias enfermidades relacionadas a inflamações crônicas, agora com as descobertas recentes relacionadas à diminuição da diversidade microbiológica.

Religião faz as pessoas mudarem?

Onde falta o estado, e bem-estar social, sobram igrejas.

E afirmar simplesmente que religião muda a vida das pessoas para pior não faz muito sentido, porque essas pessoas encontram redes de apoio em igrejas e templos. Encontram algo que é fundamental para o bem-estar psicológico.

Fazer parte de uma rede de apoio, de um grupo no qual se é acolhido, é fundamental para que a vida se organize de modo minimamente razoável, para que a pessoa possa continuar vivendo, para que ela não adentre um ciclo destrutivo, o qual em nossa sociedade está muito relacionado à drogadição, uma série de transtornos mentais incapacitantes e criminalidade.

Uma pessoa que segue uma série de dogmas, para se sentir pertencendo a um determinado grupo, pode até ser vista como alguém quem não está caminhando de modo muito racional, quando se refere a pensar qualquer coisa fora do que seu grupo pensa. Possui um nível baixo de crítica, autocrítica e independência intelectual. Mas tem forças para continuar vivendo. Pensa que sua vida tem sentido pela existência de uma entidade onipotente e sobrenatural, mas na verdade a sua vida de fato tem sentido porque faz parte de um grupo que a acolhe.

Prefere até mesmo o fim do mundo a deixar a companhia de seus pares.

Otimismo e pessimismo (um pouquinho de análise do comportamento pode ajudar)

É muito comum que as pessoas recomendem umas às outras que elas precisam ser mais otimistas. Porém não nos esqueçamos de uma coisa: o otimismo é um sentimento, e sentimentos não brotam do nada. Cada um tem uma história de vida e condições específicas para poder se sentir desta ou daquela maneira, para se sentir otimista ou não, por exemplo. Portanto a recomendação para que alguém seja mais otimista tende a fracassar. É como recomendar, por exemplo, para que alguém não sinta fome quando está sentindo fome.

O que muitas pessoas não percebem é que, na variedade e complexidade da vida, há históricos diferentes de relação com a frustração. Para fazer com que as pessoas passem a ser mais otimistas (no sentido comportamental de continuarem lutando, apesar das condições adversas, o que em muitos casos nem mesmo seria classificado como otimismo, mas que seria sim o mais desejável) é necessário que haja treinamento, habituação em relação a alguns tipos de frustração.

Porque é aquela velha história: o pessimista reclama do vento, o otimista espera que ele mude de direção, e o realista ajusta as velas. E olha que esse realista aí pode até estar um pouco pessimista, dizendo que a probabilidade de conseguir as coisas seja pequena, mas ele não para de agir, não para de tentar ajustar suas ações ao que está ocorrendo no mundo e na natureza. Trata-se do que muitos chamam de otimismo da ação, o qual é muito melhor do que o otimismo da ideia.

Em muitos casos é melhor a combinação de pessimismo no campo das ideias com otimismo no campo da ação. Se você vai, por exemplo, construir um avião, talvez seja melhor pensar no pior que pode acontecer, para assim construir o melhor avião possível.

Gut Hack

Acabei de assistir a um vídeo incrível, no qual, em fevereiro de 2016, o biohacker Josiah Zayner tenta fazer um transplante de todo o seu microbioma.

O cara é PhD em biofísica, e durante um período foi pesquisador na NASA.

Assim como eu, ele vem há vários anos padecendo de problemas gastrointestinais os quais, segundo um corpo crescente de evidências científicas, podem ser eliminados, ou significativamente amenizados, com uma alteração radical do microbioma intestinal.

O primeiro passo foi encontrar um doador saudável. Escolheu um amigo que ele julgava como completamente saudável para lhe doar fezes, saliva e amostras de pele.

O segundo passo foi composto pela tentativa de esterilização total de seu organismo. Tomou antibióticos para esterilizar os intestinos e se utilizou de uma série de procedimentos bactericidas para esterilizar completamente a sua pele.

O terceiro passo foi o próprio transplante, o qual exigiu anteriormente uma preparação bastante trabalhosa, pois ele teve de transformar essas amostras de pele, saliva e fezes em amostras que se tornassem biodisponíveis para o transplante. Então teve de preparar, por exemplo, as fezes de modo adequado, em solução salina específica, na proporção adequada, em cápsulas que pudesse ingerir, e que se abrissem somente em seus intestinos.

Não tenho todos os detalhes desse autoexperimento porque assisti somente ao vídeo, no site do New York Times, que veicula uma parte de todo o documentário que foi feito a respeito, o qual inclusive também está integralmente disponível na internet, para que qualquer pessoa possa assisti-lo gratuitamente.

Esse vídeo, entretanto, mostra que esse terceiro passo, que é o da tentativa de transplante total, foi realizado durante o período de 72 horas.

O mais interessante é que os produtores desse documentário registraram as reações contrárias de diversos pesquisadores e especialistas ao que Zayner estava fazendo. Obviamente há diversos pesquisadores pelo mundo afora, que estão lidando em detalhes com esse tipo de evidência, os quais talvez não fizessem oposição ao que ele estava fazendo. Contudo, os produtores fizeram questão de registrar as reações contrárias, as quais provavelmente são de pesquisadores não familiarizados com esse campo de estudos. E nesse vídeo é possível ouvir os áudios dos depoimentos de alguns desses pesquisadores, dizendo que o que ele estava fazendo era simplesmente estúpido, pois não havia um controle adequado de variáveis, além de perigoso, pois havia sérios riscos de contaminação, de ficar seriamente doente.

Entretanto, o que esses pesquisadores talvez não soubessem é que se tratava de um biofísico, expert em técnicas de sequenciamento genético.

E então o que Zayner fez? Ele submeteu todo o seu microbioma a um sequenciamento genético, que foi realizado por um laboratório independente, antes do experimento e 8 semanas depois.

E vejam só que interessante foi o resultado. O sequenciamento genético de sua pele, depois de 8 semanas, se manteve exatamente como era originalmente. Contudo, o microbioma de seus intestinos se alterou completamente. Logo depois desse transplante fecal, e ainda 8 semanas depois, o microbioma de seus intestinos estava quase idêntico ao microbioma dos intestinos de seu amigo que lhe doou as fezes.

E, o melhor de tudo: seus sintomas gastrointestinais simplesmente desapareceram.

Ainda não li nada sobre como seu organismo vem reagindo a essas mudanças, meses após os transplantes. Mas sei que essa técnica, a do transplante fecal, tem uma história de centenas de anos na medicina chinesa.

Essa técnica inclusive foi submetida a um experimento bastante rigoroso, realizado por uma equipe numerosa de pesquisadores holandeses, cujos resultados foram publicados na mais conceituada revista científica de medicina (New England Journal) no início de 2013.

Esses resultados foram de grande impacto no meio científico, pois o transplante fecal se mostrou como definitivamente superior ao tratamento antibiótico (com vancomicina) de colite pseudomembranosa, em estágio grave, provocada por bactérias resistentes da espécie Clostridium difficile.

Para quem quiser se aprofundar nessas questões posto abaixo o link referente a esse documentário, no New York Times, assim como alguns links básicos referentes às evidências científicas desse tipo de abordagem.

A pornografia e suas implicações para a saúde

Há um vídeo, que muitas pessoas estão compartilhando aqui pelo Facebook, o qual veicula a declaração de um músico, de 28 anos de idade, que relata como sua vida sexual e afetiva melhorou significativamente após ter abolido a pornografia de sua vida.

Ele diz que vinha tendo problemas de ereção, e que de repente resolveu parar e pensar melhor em como estava a sua vida afetiva e sexual.

Relata que, após fazer uma análise de como se masturbava, percebeu que isso geralmente ocorria a partir de imagens e vídeos pornográficos, desde seus 12 anos de idade:

"Eu tenho 28 anos, e eu acho que consumo pornografia desde os 12/13 anos de idade. Então posso dizer que eu consumo pornografia diariamente, semanalmente, há 15 anos aproximadamente. Eu nunca tive educação sexual, assim propriamente dita, na escola ou em casa, então a minha sexualidade foi construída a partir da pornografia. Foram 15 anos de uma sexualidade construída a partir de vídeos, fotos e conteúdos pornográficos em geral."

Fico um pouco assustado com a perspectiva de que a pornografia tenha um papel maior na vida de muitas pessoas do que as próprias experiências de vida, vividas na variedade das inúmeras interações que a vida oferece.

Essa vida é muito maior do que os vídeos ou imagens que as pessoas veem pela internet. Se o que as pessoas estão vendo pela internet ocupa um espaço maior, é mais determinante para o que elas vão fazer em suas interações sexuais e afetivas, nós estamos realmente diante de um problema sério.

Ouço a esse tipo de consideração com um estranhamento muito grande, porque minha experiência pessoal contradiz completamente isso que esse rapaz diz nesse vídeo. Nunca fiz a mim mesmo qualquer tipo de restrição para assistir ou ver imagens de cunho pornográfico e acho que isso nunca influenciou negativamente em minhas interações afetivas e sexuais, as quais sempre foram muito mais variadas e singulares do que qualquer representação, em imagens ou vídeos de sexo explícito.

Minha experiência de vida me mostra que a vida é muito maior, mais complexa e variada do que o que podemos assistir em imagens ou em vídeos de sexo explícito na internet.

A minha impressão é a que a vida é muito mais vasta do que isso. Se de fato um número significativo de pessoas estiver produzindo malefícios para sua vida afetiva e sexual em virtude dos vídeos ou imagens pornográficas que veem na internet, não tenho a menor ideia de como exatamente isso está se produzindo porque inclusive, dentre os inúmeros atendimentos que já fiz, como psicólogo, nunca observei esse tipo de problema no relato de meus pacientes.

E sim, obviamente que meu testemunho continua sendo meramente anedótico. Mas não consigo observar isso nem mesmo nos relatos de meus amigos, nos relatos das pessoas com as quais interagi nessa vida. Então será que eu vivo em um outro planeta?

Em relação à forma como a mulher é retratada nas produções pornográficas concordo que ela, na maioria das vezes, é representada como alguém que está ali para servir os homens.

Mas será que as pessoas adultas, os maiores consumidores desse tipo de material, são assim tão imaturas e burras ao ponto de simplesmente reproduzirem o que veem nessas imagens, com desprezo total para as diversas nuances da vida real, da vida que elas realmente vivem, no dia-dia, com todos os embates, contratempos e os envolvimentos afetivos que têm com as pessoas, no cotidiano, com as quais fazem trocas reais, e trocas que influenciam verdadeiramente seus modos de agir no mundo?

Fora o fato de que acho muito cansativo e brochante como as coisas são geralmente representadas nas imagens ou vídeos pornográficos. É sempre da mesma maneira, com um único padrão de beleza ou das ações produzidas nesses vídeos. São representações muito repetitivas, sempre com os mesmos tipos físicos de homens e de mulheres, e sempre com roteiros muito rigidamente inalterados.

São filmes enjoativos, repletos de gemidos e gritos desproporcionais, com representações de força ou de atos agressivos e violentos, os quais transformam tudo em algo simplesmente distante da realidade, da vida cotidiana, a qual é feita da interação entre imperfeições, entre pessoas que hesitam e que possuem uma série de oscilações para com seu desejo e em sua relação com o mundo.

Sinto que responsabilizar a pornografia pelos abusos que as pessoas cometem, ao deixarem de viver e ficarem somente vendo pornografia o dia inteiro, não é muito diferente do que responsabilizar as drogas ou o álcool pelo alcoolismo, pela drogadição.

Sabemos muito bem que a drogadição tem como base um empobrecimento da vida. Esse empobrecimento da vida é que leva à drogadição, assim como me parece que o empobrecimento da vida afetiva e sexual, ou alguma grande decepção ou frustração nesse campo, é que levam a uma espécie de toxicomania pornográfica.

Então, a partir desse tipo de evidência científica, a minha percepção é a de que a pornografia não é causa de qualquer tipo de distúrbio na vida sexual. Ela é um dos efeitos dos distúrbios, os quais estão relacionados ao empobrecimento da vida, o qual diz respeito à isolamento socioafetivo, frustrações ou decepções traumáticas no campo afetivo- sexual, e inclusive a falta de experiência, a falta de contato afetivo e sexual real com outras pessoas.

Sim, acho que é possível que um adolescente, ainda completamente inexperiente no campo amoroso e sexual, venha a se atrapalhar bastante se suas únicas experiências são somente visuais, assistindo a material pornográfico.

Mas isso é somente o que eu penso acerca de uma determinada possibilidade. Para poder se fazer qualquer afirmação nesse nível, teríamos que visitar a literatura científica, e observar se esse é um problema real, se isso de fato vem provocando problemas na iniciação sexual de adolescentes.

Há também quem faça uma analogia com a questão das drogas, ao ponto de fazer uma distinção, a qual reserva à pornografia o papel do crack. Nesse sentido a sexualidade seria muito mais vasta, e incluiria o que chamamos de drogas recreativas. Mas a pornografia seria, nesse caso, algo à parte: seria portadora de uma significativa periculosidade. Ou seja, a pornografia seria como o crack, talvez a uma das únicas drogas cuja defesa é praticamente impossível, dado o tanto de malefícios que causa, dado seu potencial destrutivo, o qual é significativamente maior do que a maioria das drogas recreativas existentes.

Eu contudo não penso que a pornografia seja o crack nisso tudo. Acho que a pornografia é o combo de todas as drogas nisso tudo. Penso que querer eliminar a pornografia não é muito diferente do que querer eliminar as drogas. É uma guerra perdida.

Acho um pouco infundado esse empreendimento de tentar convencer as pessoas de que elas devem consumir menos pornografia, como se a pornografia fosse um mal em si ou, como já anunciei, um determinante de distúrbios na sexualidade.

Acho que o que esse rapaz está fazendo nesse vídeo não é muito diferente do jargão: "diga não às drogas!". Ele está dizendo "diga não à pornografia!". E, pelo que entendo, segundo as evidências científicas mais atualizadas, isso é infundado.

Portanto tenho a hipótese de que esse seja um falso problema ou simplesmente uma nova forma de moralismo.

Para quem quiser assistir ao vídeo dele, eis o link: https://goo.gl/pVq8ku

A vantagem de se declarar como agnóstico

A vantagem de se declarar como agnóstico é evitar patrulhamento e encheção de saco. A maioria das pessoas que querem saber do posicionamento dos outros, nesse campo, não entende o conceito de agnosticismo e logo se desinteressa da conversa, nem mesmo tendo ideia que, no final das contas, ou se é crente ou ateu. Pois, no final das contas, a crença quase sempre pende para um ou outro lado. Porque se tivesse de apostar na existência ou não de algum tipo de deus, a maioria logo se perceberia como crente ou ateu.

Psicólogo pode se envolver? Como? Em que nível?

Psicólogo tem que se envolver com o que o paciente está lhe dizendo. Tem que mergulhar de modo integral no universo do paciente. Esse envolvimento inclui um certo envolvimento emocional também. Contudo, não é o mesmo envolvimento que existe em uma amizade, pois uma amizade é uma relação simétrica e não controlada de troca, de reciprocidade.

Aí não consigo deixar de me lembrar de quando um colega, médico, me disse assim:

- Eu não me envolvo. Acho melhor não me envolver emocionalmente com meus pacientes. Porque se eu fizer isso, vou me compadecer demais e não vou dar conta de atender a todos.

É interessante porque muitas pessoas, inclusive pacientes, me perguntam sobre como dou conta, pois percebem meu envolvimento emocional. Quando posso, tento explicar que esse é meu trabalho, o qual é controlado, pois geralmente tem hora e local marcado, para começar e para terminar, que algumas vezes levo pra casa alguns sentimentos e reflexões, e que raramente as coisas extrapolam ao ponto de me desesperar ou me sentir sobrecarregado. Enfim: explico-lhes o quanto é diferente de uma amizade.

Mas para esse colega, médico, fiz questão de dar a seguinte resposta:

- Eu, pelo contrário, me envolvo. Meu trabalho é me envolver emocionalmente também. Acho que é inclusive uma boa técnica para que eu não me dessensibilize para com a dor alheia.

Psicopatas?

Conheci e conheço algumas pessoas que têm uma vida completamente "tranquila e normal", algumas pessoas realmente boas em seu cotidiano.

Elas não fazem mal pra ninguém. Não manipulam ninguém, não abusam de ninguém. Contudo, em sua vida sexual ou afetivo-amorosa, possuem um histórico de terem cometido uma série de abusos, ao ponto de eu ficar pensando se elas eram meio psicopatas.

E elas não são psicopatas, mas no campo afetivo-sexual têm comportamentos típicos de uma pessoa psicopata. Vivem relacionamentos simultâneos, enganam, mentem, são completamente descaradas, cínicas.

Mas também tenho de admitir que não observei da parte delas uma falta de empatia, sincera, para com o sofrimento alheio. Mesmo agindo de forma completamente cínica, descarada e manipuladora, têm a capacidade de se compadecer quando percebem que estão fazendo o outro sofrer. Isso obviamente já desqualifica qualquer tipo de classificação delas como sendo psicopatas.

Velomóveis

A maioria de vocês talvez nunca tenha ouvido falar de velomóvel (velomobile). Trata-se de um triciclo ou quadriciclo, movido a pedal (com assistência elétrica ou não), o qual possui carenagem, proteção contra o clima.

É uma mistura de carro com bicicleta, o qual geralmente comporta somente uma pessoa. Porém com um velomóvel é possível fazer até mesmo compras, carregar quilos de compras, porque a maioria dos velomóveis têm um compartimento para cargas.

Tenho verdadeira fascinação por esse veículo porque, como muitas pessoas pelo mundo afora, penso que seria uma alternativa bastante viável para o transporte urbano. Sim, eu sei que a verdadeira solução para o transporte urbano está no transporte coletivo, não tenho dúvidas disso. Porém tenho fascinação também por alguns transportes individuais alternativos, geralmente movidos por força muscular ou elétrica. E o velomóvel se encaixa nessa categoria.

Com minha bicicleta elétrica já estou realizando um sonho que eu tinha. Mas fico pensando que é muito triste que as ruas não estejam cheias de velomóveis ao invés de carros, pickups e SUVs...

Por que Bolsonaro está em segundo lugar nas pesquisas?

Porque nosso candidato protofascista à presidência da república está com tanta força, em segundo lugar nas pesquisas? Sugiro, primeiramente, que vocês leiam o texto abaixo:

"Você acorda cedo, rala pra caramba pra sobreviver com o seu salário. Volta pra casa em ônibus lotado, um caldeirão de gente se acotovelando. Morre de medo de ser assaltado todo dia. Passa por um tiroteio no caminho de casa, e a única segurança que sente é a fé que tem em Jesus (e a confiança de que está com o dízimo em dia). Quando finalmente chega em casa, tudo que você quer é relaxar assistindo o futebol e a novela.

O que a esquerda moderna tem a dizer sobre você?

Que você é tudo que ela odeia. Que você é um imbecil por acreditar em deus, um alienado por assistir a Globo, um reacionário maldito por ter medo de bandido. Que você é machista por gostar de ver a dançarina rebolando no Faustão, e ao mesmo tempo homofóbico por não gostar do clipe do Pablo Vittar. E além de machista e homofóbico, você também é racista, fascista, transfóbico, heteronormativo e mais um monte de outros palavrões sofisticados que você não sabe nem pronunciar.

Do alto de sua torre de marfim, os intelectuais de esquerda idealizaram um pobre que só existe na mente deles - um pobre que está muito preocupado com apropriação cultural, islamofobia, agricultura orgânica, laicidade do Estado e veganismo. Essa enorme elite burguesa - quase sempre sustentada por dinheiro de impostos cobrados de você - está lá, falando palavras difíceis e preocupada com temas completamente alheios ao seu dia-a-dia, enquanto fala mal de tudo que você gosta e te chama de idiota.

E o pior de tudo, petulância das petulâncias: ela acredita que te representa.

A esquerda fala muito de alienação mas, de tão alienada em si mesma, se convenceu de que representa os pobres. Nada mais longe da verdade. Na verdade, ela não tem o menor interesse de representar, mas sim de controlar os pobres. A esquerda ama o pobre no mesmo jeito que alguém ama seu bichinho de estimação - eu te dou comida e limpo seu cocô, em troca você me deve lealdade e obediência eternas.

Eis que chega um Trump. Eis que chega um Bolsonaro.

Eles não querem ditar o que você deve pensar. Pelo contrário, parecem dar voz ao que você pensa. Eles não estão preocupados com a ararinha azul ou com a representatividade trans-quilombola no congresso, mas com os seus problemas reais.

Finalmente um político promete prender o bandido que roubou o celular que você ainda está pagando prestação, em vez de dizer que ele é uma vítima da sociedade que precisa de carinho. Finalmente um político que fala de Jesus, em vez perseguir o cristianismo e proteger o islã. Finalmente um político que promete acabar com a boca de fumo que destruiu a vida do seu filho, em vez de falar de legalizar a maconha. Finalmente o seu Zé, dono do botequim da esquina, vê um político que o reconhece como um empreendedor que rala pra caramba, e não como um empresário malvadão explorador.

Não é questão de eu concordar ou não com essas pautas. Como quem me conhece sabe, eu sou um ateu, defensor da laicidade, do aborto, da legalização das drogas, e da igualdade de direitos. Mas eu também sou só mais um burguesinho na minha torre de marfim.

O fato é que esses políticos estão realmente alinhados com os anseios do povão e isso, no Brasil e no mundo atuais, é uma raridade."

O texto acima faz muito sentido. Mas não faz todo o sentido, porque o que o autor chama de "esquerda moderna" não resume toda a esquerda, não é a esquerda inteira. A esquerda é também um campo heterogêneo.

O autor também se esquece que existe um candidato de centro-esquerda que tem praticamente o dobro dos votos de Bolsonaro: Lula. E Lula praticamente não tem nada a ver com as considerações feitas acima. Tanto Lula quanto Bolsonaro tem ressonância com uma série de anseios e valores da maior parte da população brasileira. Se você trocar o termo "esquerda" por "Lula", o texto acima perde completamente o sentido. E boa parte da esquerda no Brasil ainda é Lula.

Mas concordo plenamente com uma coisa: a esquerda que se comporta como no texto acima está realmente em franco desalinhamento com os anseios e o cotidiano da maior parte da população brasileira.

Para ler, na íntegra, o texto que citei: https://goo.gl/uYmRhL

A corrupção da classe política e do empresariado é um reflexo do jeitinho brasileiro?

A corrupção da classe política e do empresariado é um reflexo do jeitinho brasileiro?

Acho bem possível que isso seja uma falácia, composta por uma uma falsa dualidade e uma falsa analogia.

Talvez haja mais do que dois elementos nessa equação. É possível que existam vários contextos, e não somente o contexto da população geral e o contexto da classe política e do empresariado.

Mesmo que exista essa dualidade, será que as leis e as consequências para seu não cumprimento são as mesmas nos dois contextos?

As causas, os determinantes, do jeitinho brasileiro talvez sejam, em muitos contextos, totalmente diferentes dos determinantes da corrupção na classe política e no empresariado.

Certamente deve haver espaços de intersecção, situações em que o jeitinho brasileiro se estende também para os atos dos políticos e do empresariado. Sabemos, por exemplo, que o patrimonialismo é algo muito presente em nossa história, e ele acontece desde o nível do bairro, do município, até o nível federal. Porém não creio que exista essa continuidade, essa linearidade perfeita entre a população geral e a classe política.

Fora o fato de que é tolice acreditar que a população de repente vai botar a mão na consciência e mudar, porque não se trata simplesmente de uma questão moral.

Há evidências, pesquisas científicas, que demonstram o papel fundamental da constituição legal para a implementação de mudanças que visem a diminuição da corrupção. O comportamento das pessoas não vai mudar simplesmente por uma espontânea tomada de consciência. É necessário que existam leis que sejam devidamente cumpridas. É necessário que existam leis que as pessoas tenham condições de cumprir.

E é nesse ponto que também entra um fator talvez muito importante: a burocracia, a qual é comumente constituída de regras e leis muito difíceis de serem cumpridas. Existem recomendações, baseadas em estudos científicos, que apontam o excesso de burocracia também como um dos fatores responsáveis pela corrupção, ou pelo que chamam de "jeitinho".

Então no Brasil a população acaba tendo dificuldades de lidar com a burocracia, assim como a impunidade também parece ter seu papel. Inúmeras e variadas regras, redundantes, com muitas que parecem ser francamente inúteis, se constituem num emaranhado de muito difícil compreensão para a população, cujo sucesso no seu cumprimento acaba ficando muito aquém do que as próprias normas prescrevem.

Isso configura um quadro no qual existem muitas leis que simplesmente não são cumpridas pela maioria das pessoas, e tudo fica por isso mesmo, sem qualquer tipo de penalização, a qual seria muito mais custosa do que a situação já dada.

Algo que também é frequente, principalmente no meio político, é o balanço entre os atos de corrupção e suas respectivas penalizações. Se as penalizações acabam sendo menos custosas do que as transgressões, está aberto o caminho para a corrupção.

Alguns pesquisadores chegam a colocar nessa equação a questão do risco de ser descoberto mais o custo das penalizações. Se o risco de ser descoberto é pequeno, e o custo de uma penalização é menor do que o custo da transgressão, a tendência é ocorrer transgressão.

O risco de ser descoberto é geralmente menor quando há menos transparência, a qual está diretamente ligada ao tanto que uma sociedade, um determinado contexto é democrático, e também a algumas tecnologias da informação. Quanto menos democracia e participação popular existir, maior a tendência à corrupção. Quanto menos disponibilidade de informações na internet, para que a própria população possa fiscalizar, também aí, no caso, existe uma maior tendência à corrupção.

As pesquisas realizadas por Dan Ariely também revelam fatos interessantes. O dado que ficou mais solidamente depurado de suas pesquisas é que a desonestidade está em praticamente todas as pessoas. Há uma tendência a trapacear em todos nós, principalmente se tivermos a confiança, ou a convicção, de que não seremos descobertos.

Contudo essa tendência geral à desonestidade é, na maioria das pessoas, uma tendência a trapacear somente um pouco e não de maneira exagerada ou total. Somos todos então, de certo modo, essencialmente trapaceiros e desonestos quando temos a oportunidade para tal, porém a maioria das pessoas costuma "roubar" somente um pouquinho.

Voltando à questão inicial, acho que é muito importante não nos esquecemos de que possivelmente existem os mais variados contextos nessa equação, e não somente a tão alardeada dualidade entre a população geral e a classe política, ou a continuidade perfeita entre uma e outra, como se a própria população, ou a cultura brasileira, fossem os responsáveis pela corrupção em nosso país.

Eutanásia em casos de transtornos mentais

Há poucos dias, no Facebook, alguém publicou isso aqui:

"Muitos falam sobre a eutanásia abordando apenas doenças orgânico-funcionais, como câncer, miopatias, alterações genéticas, etc.. Por que não se fala de doenças psiquiátricas? Pode-se dizer que é porque a pessoa terá alterações psicológicas o suficiente para não tomar uma decisão correta, é claro, mas e alguém de idade avançada que tenha sofrido todos os anos da vida com depressão profunda para a qual não há tratamentos?"

Minha resposta para essa questão é essa aqui:

Na Bélgica, por exemplo, uma pessoa nessa condição, em uma condição irremediável, seja qual for, depois de um certo tempo passa a ter o direito de morrer.

Ou seja: ela passa a ter o direito de ser ajudada pelo Estado para conseguir morrer em paz. Na Bélgica é assim porque existe a concepção de que a sociedade é responsável pelos seus membros.

Estar em sociedade é completamente diferente de estar sozinho. Se você está sozinho, você constantemente responde por si mesmo. Porém, se você está em sociedade, a sociedade em boa medida é também responsável por você e por seu bem-estar. Porque ninguém em sociedade está vivendo completamente sozinho. Sociedade implica nisso: em ter sócios. Se você tem um sócio, ele também é responsável por aquilo que você é responsável.

Existe uma sociedade no empreendimento da vida. Há uma vida em grupo, há uma vida em sociedade: então a sociedade deve ajudar o sujeito tanto a viver bem quanto a morrer, se for um caso irremediável.

Saturday, November 18, 2017

O otimismo e os cadáveres do Monte Everest

Acabo de ler, aqui pela internet, a seguinte frase: 

“Lembre-se de que todo cadáver, no Monte Everest, já foi um dia uma pessoa altamente motivada.”

Como muitos de vocês sabem, há centenas de corpos de pessoas que morreram durante a escalada, e que estão congelados no Monte Everest.

Essa frase é bastante interessante porque demarca muito bem o limite do entusiasmo, da motivação, do otimismo. Para se ter sucesso não basta estar motivado, entusiasmado, pensando positivo, com vontade de fazer as coisas. É necessário, antes de tudo, estar muito bem treinado. 

Essa frase é interessante, porque é um soco no estômago da ideia de que o otimismo é determinante para alguma coisa nessa vida. O fato é que o otimismo não é determinante de nada. E não é determinante de nada porque ele não é o início. É o fim. Não é causa. É consequência. O otimismo é um efeito de interações favoráveis com o mundo e as pessoas.

As coisas não dão certo porque você está motivado, otimista. Você fica motivado e otimista porque as coisas estão dando certo. É esse o ponto principal, e que deve ser levado em conta. É justamente isso que essa frase impactante nos faz lembrar.

É óbvio que uma pessoa mais motivada irá produzir mais. Mas o ponto principal aqui é o equívoco das pessoas em acreditar que a motivação irá surgir do nada, ou de algumas estimulações que na verdade são bem pouco efetivas para fazer com que os outros fiquem mais motivados. Não adianta ficar falando que as pessoas têm de ser mais otimistas, porque isso é muito pouco efetivo para produzir mais otimismo. Assim como também não faz o menor sentido ficar falando que as pessoas têm de ser mais motivadas.

Aliás, nesse caso, o termo motivação é bem mais adequado que o termo otimismo, pois há uma compreensão melhor de que a motivação precisa ser produzida por meio de melhorias nos ambientes em que as pessoas atuam. Quando se fala em motivação, as pessoas compreendem melhor que ela não depende de pensamentos positivos ou inutilidades similares. Compreendem que é necessário fomentá-la, e que esse fomento preferencialmente ocorra com mudanças efetivas nas interações que as pessoas têm com o mundo e os outros. Se o ambiente é melhor, mais estimulante e acolhedor, a tendência é que as pessoas se sintam mais motivadas.

Quando utilizamos o termo motivação fica mais claro que não depende da própria pessoa para que ela seja mais motivada. Não basta ela pensar que ela tem que ser mais otimista ou mais motivada, porque a motivação não brota de si mesmo. Surge sempre de fora. A mudança, segundo as evidências mais sólidas, sempre se dá de fora para dentro, e não o contrário, como o senso-comum apregoa. 

Acreditar no contrário é acreditar em geração espontânea. É acreditar em falsos agentes. É trocar o determinante pelo seu efeito. É mexer no lugar errado. É não compreender a distinção fundamental entre variáveis dependentes e independentes em relação a nosso comportamento. Serve para quem não quer mudar nada, para depois ainda jogar a culpa nas costas de alguém. Só serve para isso: para manter tudo como está.

Então, finalizando: ninguém tem que ser otimista. As pessoas tem que ser motivadas, por outras pessoas, pelo mundo, e motivadas de modo adequado.

Tive hoje um momento 14 Bis!

Acho que alguém só sabe nadar, de verdade, quando já sabe boiar. E Luisa hoje, em um momento de inspiração, se jogou na água, de costas, na posição de quem sai nadando, ou boiando, e enquanto assim vazia, batendo as perninhas, foi tirando minhas mãos de suas costinhas, pedindo para que eu tirasse as mãos dela, e saiu sozinha nadando, boiando de costas. 

Foi por uma distância curta, mas foi o suficiente para que eu tivesse o sentimento de que hoje eu tive um momento 14 Bis!

O olhar sistêmico

Sim, eu sei que quando alguém está falando de outra pessoa está em boa medida falando de si mesmo. Sei que também é possível conduzir um processo de acompanhamento psicoterápico, com sucesso, somente atendendo essa pessoa, sozinha, a qual pode constantemente se referir a outras pessoas, ou a alguma pessoa especificamente. Ou seja, nesses casos é possível uma psicoterapia não-sistêmica, a qual ouça somente um dos lados, e assim alcance sucesso, eficácia.

Contudo não consigo atualmente conceber que esse tipo de abordagem, não-sistêmica, seja mais prática do que uma abordagem sistêmica quando há referência constante e repetida a alguma pessoa com quem o paciente interage, em uma relação de coabitação, dependência, interdependência ou submissão. 

Em minha prática atual prefiro sugerir ao paciente que convidemos a pessoa sobre quem ele sempre fala (a qual geralmente têm uma relação muito grande com seus sintomas), para que compareça às sessões, para que eu possa conversar com ambos.

Um bom processo de psicoterapia individual pode, aos poucos, ir separando o que é a versão da própria pessoa da versão dos outros, e isso ir se configurando de modo a se produzir mais consciência da realidade, mais lucidez. Uma boa psicoterapia individual pode ir, aos poucos, discriminando esses conteúdos ao ponto do sujeito, nesse processo, ir adquirindo maior consciência sobre si mesmo e o papel dos outros em sua vida.

Contudo, acho que não há nada melhor do que chamar a outra pessoa para conversarmos, os três, juntos, colocando todas as cartas na mesa, ouvindo a todas as versões envolvidas. Porque faz um pouco de sentido o jargão de que existem três versões para para tudo o que ocorre nesse mundo: a minha versão, a sua versão e a realidade. 

Acho importantíssimo todos sentarem juntos e se ouvirem. Acho fundamental esse aspecto de constante negociação, de constante tentativa das pessoas entrarem em acordos de vida que sejam mais saudáveis.

Na minha concepção atual penso, por enquanto, que atuar dessa forma é mais prático e eficaz. Desse modo os resultados começam a se produzir de maneira mais rápida e sólida.

Lições de anatomia

- Pai, qual é o nome de onde sai o cocô?

- Bumbum.

- Não, pai, eu quero saber o nome de lá de dentro do bumbum, do buraquinho de onde sai o cocô...

Fatos inusitados em narrativas de pacientes

Talvez nenhum outro profissional de saúde se dedique de maneira tão intensa e integral aos pacientes quanto o psicólogo.

Já pude me surpreender tanto com o que ouvi de meus pacientes que faz todo o sentido de vez em quando relatar aqui. Então abaixo vou somente pincelar alguns conteúdos de 3 histórias que acompanhei e como elas são aparentemente, ou de fato, surpreendentes:

1. Uma paciente que tivera toda a sua história de vida permeada por uma orientação heterossexual e de repente conheceu uma mulher, a qual se transformou em sua amiga, e depois de um certo tempo as duas se apaixonaram e passaram a viver juntas. Ambas relatavam que eram heterossexuais até o momento em que se conheceram. Essa paciente sempre me dizia que não tinha, que nunca havia sentido atração sexual por outras mulheres. Dizia que era homossexual somente na relação com essa companheira, e que se um dia isso terminasse ela voltaria para sua vida heterossexual. Àquela época, pelo acompanhamento que ela tinha comigo, em inúmeras sessões, minha hipótese era a de que, havendo um rompimento, ela não voltaria exatamente para a mesma vida que tinha antes. A minha hipótese era a de que, após esse relacionamento, ela passaria também a ter uma orientação homossexual em sua vida. Ela passaria a ter então uma orientação mais bissexual, pois as características de sua companheira tenderiam a ser generalizadas para outras mulheres. Mesmo que a fala dela em relação ao que sentia para com outras mulheres, que não a sua companheira, não fizesse o menor sentido, o próprio relato não deixa de ser interessante e fecundo para análise e algumas reflexões.

2. O caso da paciente que tinha muitos episódios de violência física na relação com seu marido, porém a violência nesse caso geralmente produzia mais malefícios e ferimentos para ele e não para ela. Não os acompanhei ao ponto de saber o que sucedeu depois, e não cabe aqui enunciar os motivos para a interrupção da terapia com eles. Porém, à época, havia um risco muito grande de morte para esse rapaz, pois ela já tinha um histórico judicial de sérias tentativas de homicídio. Em um confronto mais sério, mesmo que começado por ele, havia o risco grande dele se ferir gravemente ou morrer. Como era ela a paciente, e não ele, chegamos, eu e ela, juntos, a essa conclusão. Ela estava em vias de deixá-lo e ele, muito ciumento, oferecia riscos, pois em um outro momento de rompimento já havia abordado-a na rua, armado de uma faca. Ela, porém, era maior, mais pesada e mais ágil do que ele, e dessa vez, diante dessa ameaça com uma faca, na rua, ela conseguiu tomar-lhe a faca das mãos, imobilizá-lo, e ainda dar-lhe uma surra. Sempre que havia um confronto físico entre os dois, ela levava a melhor e ele sempre saía todo arrebentado. Segundo ela, havia marcas indeléveis de sangue nas paredes da casa dela, as quais ela havia tentado lavar, mas mesmo assim não se apagavam. E era sangue dele, devido às brigas que haviam tido e ele, como já mencionei, sempre levava a pior. Quem saía sangrando, e bastante machucado, era sempre ele.

3. Tive um paciente alguns anos atrás, no CAPS, que era assim como vários outros: bem parecido com um Forrest Gump da vida. Era uma pessoa muito diferente e com sérias dificuldades de adaptação social. Em seu histórico escolar havia sofrido bullying por diversas vezes. Tinha 19 anos de idade e não tinha mais dente algum na boca. Usava próteses totais em ambas as as arcadas dentárias. Ou seja: usava dentadura tanto na arcada superior quanto na inferior. Tivera uma vida tão sofrida que até mesmo esse era um indicativo de seu sofrimento: perdera todos os dentes antes de completar a maioridade. Era um menino diferente, muito diferente. Tinha uma origem muitíssimo humilde. Foi retirado, por sua tia, de uma roça muitíssimo pobre, ainda pequeno, com menos de 10 anos de idade. Alguns médicos o diagnosticaram como tendo um retardo mental leve. Outros talvez não tenham feito tal diagnóstico porque percebiam o quanto havia sofrido e o quanto a carga enorme de sofrimento de sua vida havia maculado até mesmo parte de sua capacidade intelectual. Mas não se sabia ao certo o quanto esse provável processo era reversível ou não. Trabalhava na construção civil, como peão de obra, e enfrentava, à época, os constantes abusos e loucuras de sua tia. Ela era uma mulher extremamente controladora, a qual acabava enclausurando-o em casa, ou tentando fazer com que ele se transformasse em alguma coisa que jamais se transformaria: alguém que viesse a fazer e completar um curso universitário. Ele era peão de obra e gostava de ser peão de obra. Sonhava em ser carpinteiro, e ter esse posto dentro de uma obra. Era muito bonito acompanhar, testemunhar sua dedicação ao trabalho em um canteiro de obras. Era também muito interessante ver o quanto tinha pureza, ideais elevados, nobres, relacionados principalmente a querer aprender as coisas, a gostar por exemplo de desenhos, animes japoneses. Era tocante observar que, no fundo de sua solidão absurda, tinha sonhos muito nobres. Um paciente que sem dúvida me marcou, assim como vários outros, dos quais não falarei aqui para que esse texto não fique muito longo e entediante...

Inteligência ou habilidades sociais?

Não conheço suficientemente a teoria das inteligências múltiplas e nem sei o quanto é válida. Porém, em um cenário hipotético, se me perguntarem se eu prefiro ter um QI muito acima da média ou uma habilidade social muito acima da média, definitivamente eu não teria dúvida em responder que eu gostaria de ter uma habilidade social acima da média. Porque a capacidade de compreender ou resolver problemas lógicos, ou de poder alcançar mais rapidamente a solução de alguma contenda que demande raciocínio lógico, se isso for elevado, mas não houver a capacidade de se entender com as pessoas ao seu redor, isso será em boa medida até mesmo inútil, porque nossa adaptação e nosso bem-estar psicológico dependem muito mais de nossas habilidades sociais do que de nossa capacidade para a resolução de problemas lógicos.

Felicidade, desigualdade social e suicídio

Quanto maior a desigualdade social, menor o índice de felicidade. Quanto maior o índice de felicidade, maior a taxa de suicídios. E a taxa de suicídios é maior nos países ricos do que nos países pobres.

Eis alguns dados de pesquisa, por enquanto paradoxais, os quais vêm sendo replicados por fontes independentes. 

A impressão que tenho é que altas taxas de suicídio tem uma relação muito maior com a disponibilidade para tal, seja ela obtida por meio de alguns incentivos culturais, assim como por meio até mesmo da disponibilidade de conhecimento, de informações acerca de meios que tornem mais possível o ato suicida.

O suicídio não é proporcional à quantidade de sofrimento porque se assim o fosse muitos animais cometeriam suicídio, e a maioria deles não comente suicídio justamente porque não tem capacidade cognitiva ou os meios disponíveis pra isso.

Então a taxa de suicídios é mais elevada nos países ricos e também os índices de bem-estar psicológico, de felicidade, porque eles têm os meios tanto para terem mais bem-estar psicológico como também para poderem dar cabo de sua própria vida.

Isso sem mencionar também os fatores relacionados ao alto nível de individualismo mais presente em estados ricos do que nos pobres, o qual também tem um papel grande, pois o suicídio é eminentemente um ato solitário e de certo modo bastante relacionado a um tipo específico de isolamento social.

Falta de fé?

Não acho respeitoso dizer que a pessoa tem que ter mais fé, se ela já não está observando alternativas, nem conseguindo resolver, seja lá o que for, com a fé que ela já vem tendo.

Porque, dentre outras coisas, é muito fácil e covarde inverter a situação pra cima de alguém que está fragilizado, fazendo essa pessoa acreditar que ela mesma é a responsável por tudo o que lhe ocorre.

Porque, na verdade, não nos esqueçamos de uma coisa: essa pessoa não tem mais fé porque as coisas não estão dando certo e não o contrário!

Thursday, October 19, 2017

Quando dar limites não é um ato de amor

O amor se refere, em boa medida, a estar junto, a fazer companhia, de modo constante, tranquilo, a fazer com que o outro se sinta seguro ao nosso lado.

Muitas pessoas fazem objecções a isso, ao dizerem que a firmeza também está relacionada ao amor. Sim, é importante que muitas vezes sejamos firmes quanto aos limites, porém ser firme não é ser duro. Ser firme não é abandonar aquele que ainda não compreende o que está acontecendo. 

Ser firme é estabelecer limites, mas continuar junto, continuar por perto, continuar presente e acessível. É estabelecer limites, porém com o apontamento de alternativas. É estabelecer limites, mas não se fechar para a escuta, para o acolhimento do sofrimento de quem ainda não se adaptou totalmente aos limites que foram impostos.

Há muita confusão da imposição de limites com inflexibilidade, crueldade ou desamor. Muitas pessoas justificam sua crueldade, comodismo ou desamor, dizendo que estão sendo justas ou impondo limites.

A obsessão em saber qual transtorno se tem...

Geralmente não basta saber qual é o nome do transtorno mental que você tem. 

É muito comum as pessoas que estão passando por um período muito difícil em sua vida, com sofrimento psicológico significativo, que nunca procuraram por ajuda profissional em saúde mental, imaginarem que boa parte ou todo seu sofrimento irá se resolver quando souberem qual é o nome do transtorno mental que têm. 

Pensam que nessa área as coisas ocorrem da mesma forma que em qualquer outro tipo de tratamento médico, de saúde. Imaginam que irão a um profissional de saúde mental, geralmente o psiquiatra, e que em uma única consulta ele irá fazer o diagnóstico, prescrever os medicamentos, e que a partir daí tudo irá se resolver rapidamente.

Não, não é assim. Psiquiatras trabalham com hipóteses diagnósticas, as quais terão de ser constantemente reavaliadas. Após a primeira consulta o paciente terá de ser constantemente reavaliado, para ir aos poucos se consolidando um possível diagnóstico do que tem. 

E sair do consultório com a prescrição de alguns medicamentos geralmente não é a solução. Geralmente é necessário um acompanhamento psicológico. 

Os medicamentos psiquiátricos tem função remediativa, de alívio de sintomas. Não atuam nas causas, nos determinantes dos transtornos mentais. Por si só não curam, não produzem a recuperação, a reabilitação da pessoa que está sofrendo.

Para haver recuperação é necessário um processo de investigação que almeje descobrir, em boa medida, quais são os determinantes do sofrimento da pessoa em questão. E esses determinantes, predominantemente e de modo geral, estão na vida da pessoa, em como ela está vivendo, em quais estimulações sofre, em como estão se dando suas interações com o mundo e com outras pessoas.

Esta investigação portanto deve se atentar para fatores tais como, por exemplo: dieta, regime de sono e vigília, postura e expressão corporal, rotina de exercícios físicos e a complexidade das interações com outras pessoas. Uma psicoterapia, ou um processo de orientação psicológica minimamente eficaz, irá se atentar para esses e outros possíveis fatores.

O paciente tem direito a um prognóstico

Uma paciente de 18 anos de idade estava com peritonite e bastante ansiosa:

- Quanto tempo vou ficar aqui?, perguntava, repetidamente, para várias pessoas da equipe.

Perguntou também para mim. Deixei que falasse mais, que se expressasse, para procurar compreender os motivos específicos de sua ansiedade naquele momento. Percebi que essa informação, o prognóstico, era importante para ela, para que pudesse fazer algum planejamento mínimo de como iria enfrentar seu período de internação na UTI. Desse modo, então, eu lhe disse que iria tentar descobrir isso conversando com o médico do plantão.

Por sorte o médico de plantão era alguém com quem eu tinha uma interlocução razoavelmente tranquila. Naquele contexto hostil até que era um cara legal:

- A paciente está muito ansiosa. Precisa saber de seu prognóstico, de mais ou menos quantos tempo ficará internada aqui. Você tem uma ideia de mais ou menos qual será o período dela na UTI?

- Puta que pariu... Isso é falta de rola, só pode ser.

- Veja bem, doutor, ela de fato está muito ansiosa, e creio que ter consciência de mais ou menos quanto tempo irá permanecer na UTI irá ajudá-la a se planejar melhor sobre como irá enfrentar todo o tempo que em que estiver aqui. Fora o fato de que essa informação pode fazer com que ela se acalme. Ela está interpelando várias pessoas da equipe com a mesma questão...

- Isso é falta de resguardo. Vai lá e diz pra ela que ela precisa de resguardo.

Tentei ainda uma vez mais explicar a esse médico que essa informação talvez fosse muito importante para o prosseguimento do acompanhamento dessa paciente. Mas ele de fato estava irredutível nesse posicionamento sarcástico e debochado, o qual senti como profundamente desrespeitoso ao sofrimento daquela pessoa, daquela moça, de 18 anos de idade, que estava se sentindo absurdamente sozinha e angustiada com algo que é geralmente muitíssimo sofrido: a falta de perspectivas, o tempo que não passa, estar presa numa cama em um ambiente onde há excesso de iluminação e sons repetitivos e enlouquecedores dia e noite, com dores pelo corpo e com todo o mal-estar referente à sua condição de saúde - o que, no final das contas, pode muito bem se parecer com uma tortura.

Na verdade fiquei até mesmo com vergonha do que ele estava dizendo. Outras pessoas ouviram, e fiquei até com dificuldade de acreditar que ele estava dizendo aquilo, que estava fazendo aquele tipo de zombaria desumana naquele contexto extremo. 

O que ele estava fazendo era bizarro e repugnante, e eu simplesmente não entendo como insistia em continuar com o mesmo tipo de comportamento, apesar de minhas justificativas técnicas.

Estou narrando-lhes esse episódio, e também aqui pensando que vocês também devem estar chocados, pois a ocorrência de uma situação dessas é praticamente inacreditável. Porém lamento lhes informar, mas foi exatamente isso o que ocorreu. É triste, mas é de fato infelizmente o que aconteceu.

E devo ainda lhes ressaltar que esse médico não era dos menos humanizados e empáticos. Acho que ele estava assim, de certo modo, em um nível mediano em termos de humanização naquele contexto, naquela UTI. Prefiro inclusive pensar que isso que ele disse foi somente um deslize, que isso certamente não refletia a maior parte das ações de cuidado, com o outro, que ele tinha em sua vida profissional no SUS.

Então, em relação ao prognóstico, não pude receber essa informação dele, o qual muito provavelmente não a detinha. Ou seja: ele não sabia e infelizmente, como boa parte dos médicos, em muitas situações, era incapaz de assumir que não sabia alguma coisa. Era melhor desconversar do que revelar que não possuia uma determinada informação.

Então o que fiz foi acessar a internet e tentar encontrar algum artigo científico que mencionasse a questão do prognóstico para peritonite. Em uma fonte confiável encontrei o queria. Estava em uma tabela que discriminava uma série de condições e faixas etárias.

Fui até o referido médico e lhe mostrei essa tabela:

- Posso ir até a paciente e repassar essa informação pra ela?

- Sim, pode!

Como eu lhes disse: esse médico não era dos piores. Não se estressou, nem arranjou confusão comigo porque descobri uma informação da qual ele não tinha conhecimento. Nossa interação cordial não se abalou em função disso!

Transtornos mentais são doenças?

Há, no meio acadêmico, um debate a respeito da classificação dos transtornos mentais, se podem ou não ser considerados doença.

Existem teóricos que defendem que os transtornos mentais são doenças, assim como existem aqueles que defendem que não são. Quem defende que não é doença argumenta que um comportamento específico, considerado inadequado para um determinado padrão sociocultural, não é da mesma natureza, por exemplo, que um fígado ou um rim que não está funcionando bem.

Thomas Szasz, um desses teóricos, inclusive faz uso do exemplo do “escravo fujão”. Durante a escravidão, nos Estados Unidos, houve uma época em que os escravos que frequentemente fugiam eram classificados como doentes. Segundo Thomas Szasz esses escravos tinham o diagnóstico de uma doença mental: drapetomania.

A proposição de Thomas Szasz é impactante. Ela deixa claro que a definição do que é ou não um transtorno mental possui variação sócio-histórico-cultural, que comportamentos fora de um determinado padrão talvez não possam ser considerados doença, porque possuem uma natureza totalmente diferente do que é comumente classificado como doença.

Jerome Wakefield, por sua vez, é um autor que propõe uma aproximação do conceito de transtorno mental ao conceito de doença. Para Wakefield são patológicos os sintomas que produzem disfunções danosas. Então o diagnóstico de transtornos mentais implica em elementos factíveis, que seriam essas disfunções, assim como em elementos valorativos, referentes ao que é desejável ou conveniente a um determinado contexto ou grupo social.

Essas disfunções, de modo geral, seriam danosas para a própria pessoa que as vivencia. Se uma pessoa, por exemplo, está tendo visões de criaturas demoníacas (ou espíritos), as quais outras pessoas não estão tendo; se essas visões vêm comprometendo sua rotina, se isso vem atrapalhando demais a sua vida, impedindo-a de sair de casa, de fazer o que a maioria das pessoas faz para poder sobreviver, e se isso, por exemplo, implica em riscos para a sua vida, logo há uma disfunção que é danosa para a própria pessoa. Logo essa pessoa está doente.

O problema é que, mesmo segundo a proposta de Wakefield, não há como afirmar que transtornos mentais sejam simplesmente doenças pois, mesmo com a existência de disfunções, o elemento valorativo também está sempre presente, influenciando de modo significativo a intensidade e perpetuação dessas disfunções.

Contudo uma série de sintomas disfuncionais são muitas vezes disfuncionais em um determinado contexto social e não em outros. É o que nos mostram claramente áreas como a Antropologia, a Sociologia e a História: o comportamento (sintoma) não funciona, não é útil, em um contexto social específico, em um determinado tipo de sociedade, mas pode funcionar em outros contextos. Visões de espíritos podem atrapalhar bastante alguém que as tem enquanto está dirigindo, porém podem ser concebidas como totalmente adequadas e funcionais no contexto de alguns rituais religiosos. Pessoas com esse tipo de relato, de visão, passam a ser valorizadas nesses contextos, e assim assimiladas com mais facilidade à vida social.

Em termos teóricos não vejo muitos problemas na concepção de que os transtornos mentais são doenças, porque de fato existem elementos que justificam esse tipo de classificação.

Contudo penso que os problemas começam a brotar nos contextos sociais de afirmação desse tipo de classificação. Quando um leigo diz que padece de um transtorno mental acaba geralmente carregando junto as concepções mais tradicionais e simplórias do que seriam as doenças: “é algo que tenho, que me tomou de assalto, que surgiu de repente, sem a minha participação, pois a gente não escolhe quando vai ficar doente...”

E é exatamente nesse ponto, nesse nó, que os transtornos mentais são muito diferentes do que popularmente se concebe como sendo uma doença. Não surgem de repente e não tomam, como uma infecção, uma pessoa de assalto. Possuem um histórico, do qual as pessoas geralmente estão longe de se dar conta, e ficam ainda mais longe quando somente são capazes de pensar que possuem um transtorno. Como se os transtornos fossem simplesmente doenças...

O diagnóstico de transtornos mentais - parte 1

Não existem exames laboratoriais que comprovem a existência da maioria dos transtornos mentais. O diagnóstico é clínico. Ou seja: diz respeito somente à observação que o profissional de saúde, seja ele psiquiatra ou psicólogo, faz. 

Trata-se portanto, geralmente, da observação do comportamento do paciente durante as consultas, durante os atendimentos. É assim que geralmente ocorre, pois as visitas domiciliares, para a observação in loco do comportamento dos pacientes, são bem menos frequentes. Outra fonte de informação é também o relato de familiares ou pessoas que convivem com o paciente. 

Então o profissional de saúde mental geralmente se fia na forma como o paciente relata seus comportamentos e sintomas, assim como também no relato das pessoas que convivem com ele. Ressalto então que é na forma como o paciente relata seus sintomas e comportamentos, porque não basta somente que relate alguns sintomas e comportamentos. Tudo depende também de como o paciente interage com o profissional que está lhe atendendo.

Portanto, como os profissionais de saúde mental ainda dependem muito de seus recursos semiológicos, clínicos, pois não podem contar com exames que atestem mais indicialmente as peculiaridades fisiológicas em questão, nessa área há uma possibilidade maior de ser enganado por um ou outro paciente.

E não existe somente esse risco. As intervenções dos profissionais de saúde mental têm um impacto muito grande na manutenção ou remissão de alguns quadros, de alguns transtornos. Em alguns casos alguns diagnósticos, ou mesmo algumas licenças e atestados, podem, por exemplo, piorar o quadro. 

Os transtornos mentais possuem um tipo de sintoma que é muito peculiar. Não são simplesmente sintomas de tipo ter. São sintomas de tipo ser. Os sintomas psicopatológicos tem uma relação muito íntima com a própria identidade da pessoa. 

Essa peculiaridade inclusive pode até fazer soar estranho que alguém diga que tem algum tipo de transtorno. Porque na verdade essa pessoa não simplesmente tem um determinado transtorno. Ela é, em boa medida, aquilo que está configurado segundo os sintomas de seu transtorno.

Não pretendo me estender muito nesse texto, mas talvez sua mensagem central é a de que a área de saúde mental não é nada fácil. Porque ainda é uma área em construção. Ainda carece de diagnósticos mais objetivos, de definições mais objetivas do que realmente está acontecendo com uma pessoa que apresenta determinados comportamentos, ou relata determinados sinais e sintomas, os quais em tese configurariam um transtorno mental.

A história da psiquiatria e da psicopatologia é repleta de erros, de situações nas quais pessoas foram estigmatizadas, encarceradas, excluídas ou discriminadas em função de diagnósticos, os quais não eram justos ou adequados para com a condição que vivenciavam. Essa situação atualmente é menos frequente, mas ainda é mais comum quando comparada a outros contextos referentes à avaliação da saúde e do bem-estar das pessoas. 

Portanto, o trabalho em saúde mental demanda muita paciência e tolerância ao fracasso, ao sentimento de impotência, a um sentimento de que ainda temos muito o que criar e desenvolver para que essa ciências tenham uma sustentação científica mais sólida. 

Apesar de todas essas dificuldades, o que motiva talvez a maioria dos profissionais nesse campo é, em maior ou menor medida: lidar com a amplitude​ fascinante da diversidade humana, e os numerosos mistérios envolvidos nisso; e poder exercer uma atividade profissional que compreende o valor das interações amistosas e gratificantes entre as pessoas. Obviamente devem existir outros tipos de motivação. Porém o que me chama mais a atenção são essas duas que citei.

Enfim: é difícil, é muito difícil, mas é também muito fascinante e desafiador!